<body>

Deixa com o Beque !!

quarta-feira, maio 21, 2003



Missa de sétimo dia de Maria Sanches Danhoni, 19:30 hs na igreja Matriz de Umuarama...

*Publicado por Dhuvi-Luvio 11:35 AM


segunda-feira, maio 19, 2003



Os pés de café pareciam árvores de grande porte. Os frutos vermelhinhos eram ligeiramente doces. Sacos de sessenta quilos eram rapidamente preenchidos: bastava fechar a mão na junção do galho com o tronco e fazer correr a mão de alto a baixo fazendo os pequenos frutos se desprenderem, era a debulha.
Seu Vicente parava a F-100 no meio do carreador para inspecionar a lavoura. Nessa hora a gente já estava na carroceria, desde a primeira porteira, onde eu e meu irmão brigávamos para ver quem iria ter a honra de abri-la. Meu avô separava a ramagem para mostrar orgulhoso o resultado daquela safra que não havia sido castigada pela geada. Dona Maria admirava o “pé carregado” com um sorriso farto.
Os frutos eram juntados em montículos e, a seguir, abanados com auxílio de peneiras, manejadas habilmente, sendo o conteúdo atirado para o alto, a fim de que o vento se encarregue de torná-lo livre das sujeiras e impurezas. Logo após era lavado e esparramado com o rastelo no terreiro de cimento ou terra batida. Os frutos ficavam secando ao sol durante o dia todo e à noite eram cobertos por lonas plásticas para se protegerem do sereno. O ato se repetia por dias até que o fruto, já bem escuro, pudesse ser despolpado, retirando sua casca e descobrindo seus dois grãos internos verde-acinzentados.
Os sacos dessa produção eram guardados na tulha e pelo menos um deles era trazido para cidade a fim de ser consumido.

Imagine um globo terrestre desses de mesa de professor, aqueles que todo mundo fazem girar e depois o fazem parar com o dedo indicador para saber onde vão passar a lua-de-mel. O torrador manual era algo parecido, muito mais rústico e muito mais escuro. Havia uma portinhola no meio do globo (mais ou menos na região amazônica) por onde os grãos eram colocados. A seguir era colocado no fogo e ia-se girando o globo até os grãos torrarem pó inteiro. Quase sempre era a Dona Maria que realizava essa operação, já sabia de cor o tempo de torrefação. Era um ritual. O café torrado era então colocado numa grande lata onde aguardava para ser moído. O processo de moagem era manual e realizado sempre momentos antes da confecção do café, para que a bebida mantivesse seu gosto e aroma originais. Lembro-me como se fosse hoje do moinho colocado na despensa da garagem, inúmeras vezes eu pedia para minha avó me deixar ajudá-la a moer os grãos torrados. A tampa do moinho era colocada na saída para concentrar o pó, girava-se então a manivela no sentido horário e ia-se girando a tampa para que o pó se ajeitasse por igual. A medida que os grãos eram triturados, mudava-se a mão, de direita para esquerda, pois o braço cansava rapidamente. A força requerida diminuía à medida que a moagem prosseguia, até que no final a manivela girava livre. Nessa hora fazia-se movimentos contrários e batia-se no moinho para que caíssem os restos de pó. Esse pó era então colocado imediatamente na cafeteira de pressão e em aproximados cinco minutos estava pronto o pretinho. Era um ritual...

É claro que não preciso dizer o quanto era maravilhoso este café, não só pelo processo, quanto pelo amor e carinho que a Dona Maria colocava junto com o açúcar.

A mesa da tarde era farta. Pães, queijos, biscoitos, bolos, roscas, geléias, manteigas, requeijões, margarinas...Quase tudo ficava intacto! Mas a cafeteira era logo esvaziada e quase sempre era passado um novo pretinho. Também pudera, as xícaras mais pareciam baldes, e mesmo assim a gente repetia. Não havia como, a Dona Maria via uma xícara vazia e logo a enchia até a boca, exageradamente! Quem era visita e não estava acostumado, logo se assustava, mas era só começar a tomar o café e a xícara logo se esvaziava. Com isso o café da tarde passou a ser concorrido, sempre havia alguém “passando por ali”, sempre na hora do café. Meu avô voltava mais cedo da fazenda, ou interrompia o baralho no “bolão” para comparecer, meu pai deixava o escritório por um tempinho, meu tio sempre aparecia dizendo que só queria uma “xicrinha”, tomava mesmo o café em uma xícara menor, mas em compensação repetia várias vezes...
Algumas visitas usavam o artifício de levar um pão caseiro ou uma rosca doce de presente para Dona Maria só para poder saborear o cafezinho. Meu pai foi mais longe ainda, não satisfeito com o café da tarde, passou a ser o “padeiro” oficial da sogra e todos os dias de manhã levava para ela uns “francesinhos” em troca do café matinal.

Quando o Seu Vicente se foi e o seu filho Marco casou, a casa que parecia que ficaria vazia se encheu mais ainda de adeptos do café da tarde. Era um ponto de encontro, todo mundo sempre arrumava um tempinho ou uma desculpa para aparecer. Dona Maria sempre enchia a cafeteira esperando por companhia para o café, e quando alguém faltava, ela ligava para intimar a presença ou exigir uma justificativa muito forte.

Imagino como o Seu Vicente, Tia Niça, Tio Lourenço, Tio Mingo, o Kiko, o Louro e todos os santos e santas que a Dona Maria era tão íntima, devam estar felizes com a presença dela. Imagino como deve estar concorrido o café da tarde celestial...


*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:15 PM




Nome : Dhuvi-Lúvio
Local: Batel-Pr
Email para mim


EM CURITIBA

Links
Antigos

Powered by Blogger
Site Meter