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Deixa com o Beque !!

sábado, agosto 09, 2003





Arte de desamar

Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.

As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.

Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.

Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.

Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.

Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.


Murilo Mendes, em "O Visionário", 1930-1933.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 6:52 PM


*Publicado por Dhuvi-Luvio 6:25 PM




Desencanto
(Manuel Bandeira)

Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!


*Publicado por Dhuvi-Luvio 5:59 PM





*Publicado por Dhuvi-Luvio 1:45 PM




ZUENIR VENTURA

Farda mas não talha


Parabéns. Vocês venceram. Data vênia, com todo respeito: que poder de lobby! Que capacidade de mobilização! Que força corporativa! Se alguém tem dúvidas, basta olhar para o que aconteceu. Enfrentando a opinião pública, ameaçando o país com greve ilegal, peitando o governo, contrariando o presidente da República, pressionando o Congresso, afrontando o bom senso, os juízes dos estados conseguiram finalmente impor sua vontade cem por cento, ou quase, já que só exigiram 90,25% do salário dos ministros do STF. Os sem subteto deram uma lição aos sem-terra e sem-teto de como as coisas têm de ser feitas.


Ah, como o país seria melhor, e como a Justiça seria mais justa, se esses bravos militantes em causa própria resolvessem defender a reforma do Judiciário com o mesmo ardor, empenho e destemor com que lutaram na defesa de seus privilégios, perdão, de suas prerrogativas. Quem sabe agora, vitoriosos, eles não vão melhorar a imagem da instituição, desfazendo a impressão, por certo injusta, de que, como acreditam muitos, eles trabalham poucas horas por dia, poucos dias por semana, poucas semanas por mês e apenas dez meses por ano.

Certamente vai-se descobrir também como eram falsas aquelas críticas de que nossa Justiça é lenta, que há processos encalhados ou se arrastando por anos a fio, que ela é de classe, privilegiando os ricos e condenando os pobres. Com a melhoria salarial, tudo vai ser diferente. Outro dia um juiz alegou que seus pares precisavam ganhar bem para que julgassem com isenção e independência financeira. Em outras palavras, ele aconselhava conceder-lhes uma boa remuneração para que pudessem resistir à atração do mal.

Não explicou em que altura do subteto (85,5%? 75%?) um magistrado corre o risco de cair em tentação. Nem quantos salários são suficientes para garantir sua incorruptibilidade. Como se vê, o argumento pressupõe uma relação de causa e efeito entre remuneração baixa e corrupção, o que, se fosse verdade, seria a salvação da lavoura: bastaria equiparar todos os magistrados àqueles marajás que ganham R$ 40 mil por mês.

O presidente do STF, ministro Maurício Corrêa, já avisou que a luta continua — agora para garantir um fundo de pensão exclusivo para os juízes — mas acredita que a fixação do subteto nos estados foi uma medida moralizadora do Judiciário, pois reduziria as exorbitâncias salariais. Que bom que a luta tenha sido por essa causa. Assim, está tudo certo, como na frase de Millôr Fernandes: “A justiça farda mas não talha.”

*Publicado por Dhuvi-Luvio 1:29 PM


sexta-feira, agosto 08, 2003



*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:07 PM



*Publicado por Dhuvi-Luvio 10:18 AM




*Publicado por Dhuvi-Luvio 9:50 AM





O Jornal "O Globo" de hoje traz um caderno especial sobre o antes imortal Roberto Marinho. O absurdo dos absurdos: os caras abriram espaços publicitários no interior do caderno para a corja de baba-ovos se manifestar. Ou seja, capitalizaram em cima do velhinho...
O velório foi concorridíssimo, Lula e seus principais ministros que sempre desejaram o pior para o velho foram lá conferir se o corpo não mais mexia. Até o arqui-inimigo Engenheiro e também velhinho Leonel Brizola passou por lá para cumprimentar os familiares e se sentir vitorioso quanto a aposta de quem entraria primeiro no inferno. O fogo deve ficar mais alto quando ACM e Sarney se juntarem ao magma...
Muitos taxavam "Dr. Roberto" como o "cidadão Kane" brasileiro, mas creio que o título está mais para o Assis Chatô que era mais transparente em suas trapaças e armações.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 9:30 AM


quinta-feira, agosto 07, 2003




O Promotor de Justiça chama sua primeira testemunha, uma velhinha de idade bem avançada. Para começar a construir uma linha de argumentação, o Promotor pergunta para a velhinha:
- Dona Genoveva, a senhora me conhece, sabe quem eu sou e o que faço?
- Claro que eu o conheço, Carlinhos! Eu o conheci bebê. E, francamente,você me decepcionou. Você mente, você trai sua mulher, você manipula as pessoas, você espalha boatos e adora fofocas. Você acha que é influente e respeitado na cidade, quando na realidade você é apenas um coitado. Ah, se eu o conheço! Claro que conheço!
O Promotor fica petrificado, incapaz de acreditar no que estava ouvindo.
Ele fica mudo, olhando para o juiz e para os jurados. Sem saber o que fazer,ele aponta para o advogado de defesa e pergunta à velhinha:
- E o advogado de defesa, a senhora o conhece?
A velhinha responde imediatamente.
- O Robertinho? É claro que eu o conheço! Desde criancinha. Eu cuidava dele para a Marina, a mãe dele. E ele também me decepcionou. É preguiçoso, puritano, alcoólatra e sempre quer dar lição de moral nos outros sem ter nenhuma para ele. Ele não tem nenhum amigo e ainda conseguiu perder quase todos os processos em que atuou.
Neste momento, o juiz pede que a senhora fique em silêncio, chama o Promotor e o advogado perto dele, se debruça na bancada e fala baixinho aos dois.
- Se algum de vocês perguntar a esta velha filha da puta se ela me conhece,vai sair dessa sala preso! Fui claro?

*Publicado por Dhuvi-Luvio 6:31 PM





*Publicado por Dhuvi-Luvio 10:14 AM







A mensagem de Saddam

Depois de inúmeros "Nós ainda não sabemos se Saddam está vivo...", o próprio Saddam resolveu escrever uma carta a Bush pra dizer que ainda estava no jogo.
Bush, ao abrir a carta, leu o que parecia ser uma mensagem em código:

370HSSV - 0773H

George W. não conseguia entender, então digitou o código e mandou por e-mail para Colin Powell. Colin e seus colegas não tinham a menor idéia do que aquilo significava, então enviaram à CIA para ser analizado. Ninguém lá foi capaz de resolver o enigma, então mandaram cópias para a NSA, NASA, MIT e o Serviço Secreto.
Meio à contragosto, mandaram também para o Mossad, em Israel. Lá, eles olharam a mensagem e prontamente responderam:
"Digam ao sr. Presidente que ele está lendo a mensagem de ponta-cabeça."

*Publicado por Dhuvi-Luvio 9:23 AM



quarta-feira, agosto 06, 2003





*Publicado por Dhuvi-Luvio 6:15 AM





terça-feira, agosto 05, 2003





LÁPIDES

AGRÔNOMO - Favor regar o solo com Neguvon. Evita vermes.
ALCÓOLATRA - Enfim, sóbrio.
ARQUEÓLOGO - Enfim, fóssil.
ASSISTENTE SOCIAL - Alguém aí, me ajude!
BROTHER - Fui.
CARTUNISTA - Partiu sem deixar traços.
DELEGADO - Tá olhando o quê? Circulando, circulando.
ECOLOGISTA - Entrei em extinção.
ENÓLOGO - Envelhecido em caixão de carvalho, aroma formol e after tasting com presença de microorganismos.
ESPIRITUALISTA - Volto já.
FUNCIONÁRIO PÚBLICO - É no túmulo ao lado.
GARANHÃO - Rígido, como sempre!
GAY - Virei pur purina.
HERÓI - Corri para o lado errado.
HIPOCONDRÍACO - Eu não disse que estava doente?
HUMORISTA - Isto não tem a menor graça.
JANGADEIRO DIABÉTICO - Foi doce morrer no mar.
JUDEU - O que vocês estão fazendo aqui? Quem está tomando conta da lojinha?
NINFOMANÍACA - Uau, esses vermes vão me comer todinha!
PESSIMISTA - Aposto que está fazendo o maior frio no inferno.
PSICANALISTA - A eternidade não passa de um complexo de superioridade mal resolvido.
SANITARISTA - Sujou!
SEX SYMBOL - Agora, só a terra vai comer.
VICIADO - Enfim, pó

*Publicado por Dhuvi-Luvio 12:23 PM



*Publicado por Dhuvi-Luvio 11:50 AM



segunda-feira, agosto 04, 2003






Volta e meia me pego com a nítida impressão de que as pessoas que acompanham minha vida através deste site têm a pior das impressões no que diz respeito à minha felicidade. Confusão compreensível, afinal, este é – e sempre foi – um espaço onde lido com minhas tristezas e insatisfações. Agora, depois de alguns anos mantendo este site, este diário público, este blog – chame como quiser – tenho bagagem o suficiente para tecer algumas considerações sobre esse evento em minha vida que foi começar a lidar com vaidades e questionamentos de forma pública, ainda que parcialmente anônima. No entanto, mantenho para mim essas considerações. Não encontro a disposição para publicar esses pensamentos. Creio que, enfim, me apercebi do exercício de futilidade – e vaidade – que é a necessidade do aval alheio para cimentar minhas opiniões. Talvez eu tenha transcendido essa ferramenta. Talvez eu tenha juntado opiniões, exemplos, situações o suficiente para ser capaz de viver sem o email elogioso de um desconhecido ou sem ser transcrito em outros sites, como se o que eu digo encerrasse alguma verdade profunda. Talvez não tenha saciado minha vaidade, mas sim incorporado tudo o que esse site me trouxe, todas as boas opiniões, todas as amizades decorrentes, todos os aprendizados, todas as quedas de cavalo, todas as supresas – boas e ruins – descolando meu bem estar, minha tranquilidade, do feedback que este site pode dar. Não sei exatamente o que aconteceu, mas sei que agora minha felicidade independe do testemunho alheio. E, assim, o site segue esperando alguma agrura a ser resolvida, algum pepino que precise ser externado para melhor análise. E, também, sigo eu, querendo sempre mais, mas sabendo que tudo acontece, com o devido esforço, no seu devido tempo.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:12 PM





Não, obrigado, eu não bebo!

Basta esta frase e uma avalanche de outras vem em seguida: Sua religião não permite? Mas por quê? Algum motivo especial? É trauma de infância? Alguém bebe na sua família? Você é de Peixes (o signo)? Há quem ainda, num soslaio, pergunte se faço parte do AA (Alcoólatras Anônimos), em franca e permanente recuperação.

Sabe, a feijoada de ontem, hoje estou com asia...amanhã preciso acordar cedo... É desconfortável: "Não, obrigado, eu não bebo!"

E logo que deixei de me incomodar com as toneladas de perguntas sobre esta mimha promessa de viver sóbrio, foi a vez de observar melhor a reação das pessoas diante da minha declaração, quase juramento, de que nada há de errado comigo. Simplesmente. Não, ninguém bebeu ou bebe de ficar "alto" na minha família...Não, eu nem sei se tenho de fato, uma religião. Felizmente nunca passei por alguma situação em minha infância que justifique um trauma (mas confesso que quase estou traumatizado pelo fato de não beber). E finalmente, eu declaro, a quem interesssar possa, que não frequento o AA.

Não que isto signifique uma certidão autenticada em cartório, de que estou falando a verdade. Mas este fato não é o mais inoportuno. Chatice mesmo, daquelas de querer cortar os pulsos, é alguém tentando convencer (a ele mesmo?) de que "aquela" bebiba em especial você pode beber! "É leve, meu irmão trouxe da Indochina, é feita artesanalmente, uma raridade. Mas nem um golinho?" É dose!!

Isto, sem falar que sempre sou eleito por unanimidade, para levar todo mundo para casa em final da festa! O que realmente não me aborrece nenhum pouco. Mas seria bem mais agradável se o agradecimento fosse feito com a isenção de perguntas e insistências. Ou para quando você ousa dar uma gostosa gargalhada, e a sua simplória pepsi light com gêlo e limão, se transforma na piada da noite!

Mas como aprendi, que quando alguma coisa não nos controla temos que carregá-la, levo a minha sina de ser sóbrio e tento fazê-la com bom humor. Hoje quando algum desavisado começa a sabatina toda de novo, já respondo de antemão, parafrasenado Clarice Lispector: "Não, obrigado. Já nasci embriagado! "

*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:09 PM










*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:43 PM





Em plena IPANEMA, um país melhor que a Noruega
Luiz Ernesto Magalhães

Esta é para comemorar cantando “Garota de Ipanema” e esquecer aqueles problemas típicos do dia-a-dia da Zona Sul, como os engarrafamentos, os mendigos e os flanelinhas. Estudo ainda não concluído pela prefeitura que ajudará no planejamento de estratégias para o desenvolvimento da cidade mostra que, se a região formada por Ipanema, Leblon, Lagoa, Jardim Botânico, Gávea, São Conrado e Vidigal fosse um país independente, teria o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais alto do planeta, como revelou ontem Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO.

O IDH da hipotética República de Ipanema seria de 0,988, superando com folga os 0,944 da Noruega — país mais bem colocado no ranking de 2003. O indicador da ONU leva em consideração renda, expectativa de vida e escolaridade das populações dos países. E o estudo despreza a disparidade de se compararem bairros com países.

— Estou surpreso. Vocês têm praias muito bonitas, povo mais descontraído e não têm que enfrentar temperatura de até 20 graus negativos no inverno. Claro que nosso índice de criminalidade é baixo, como o da Zona Sul do Rio — diz Ejermund Saecher, de 36 anos, primeiro-secretário da Embaixada da Noruega em Brasília.

O país nórdico ganha em outros itens: quase não há alunos em escolas particulares, pois o ensino oficial é de boa qualidade, enquanto a rede pública de saúde merece elogios. A República de Ipanema, porém, ganharia em expectativa de vida.

O diretor de Informações Geográficas do Instituto de Urbanismo Pereira Passos, Sérgio Besserman, que coordena o trabalho, diz que o estudo deve ser concluído em setembro e tomará como base os dados do Censo de 2000. E que os cálculos realizados ainda estão sujeitos a revisão. Segundo Besserman, os dados permitirão traçar um retrato fiel da evolução sócio-econômica do Rio nos últimos anos. Mostrará, por exemplo, se houve redução das disparidades entre bairros e onde melhorou mais a qualidade de vida.


Em 2001, baseado em dados do Censo de 1991 e da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (1996-1999) do IBGE, foi divulgado o Relatório de Desenvolvimento Humano da Cidade. Coordenado pela prefeitura e pelo Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada (Ipea), o trabalho já mostrava as diferenças regionais. Na época, o cálculo do IDH foi feito por cada bairro e o melhor era o da Lagoa: 0,902. Caso na época do estudo a Lagoa fosse um país, ficaria em 22 lugar, entre a Espanha (0,918) e a Nova Zelândia (0,880). Acari, com 0,573 de IDH era o pior do ranking, com um índice comparável aos dos países da África.


*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:37 PM


domingo, agosto 03, 2003


*Publicado por Dhuvi-Luvio 8:09 PM






Por medo do desconhecido (Trecho)

Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor por essa vida mortal a assassinava docemente aos poucos. E o que é que se faz quando se fica feliz? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia e como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não, ela não queria ser feliz. Por medo de entrar num terreno desconhecido. Preferia a mediocridade de uma vida que ela conhecia. Depois procurou rir para disfarçar a terrível falta de escolha. E pensou com falso ar de brincadeira: "Ser feliz? Deus dá nozes a quem não tem dentes." Ma não conseguiu achar graça. Estava triste, pensativa. Ia voltar para a morte diária.

03 de junho de 1972

Clarice Lispector - A descoberta do Mundo - Editora Rocco: Rio de Janeiro, 1999.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 8:01 PM





Sob o império da lei

Ainda meio inseguro quanto à compreensão do que pretendo escrever abaixo, taquei o título aí em cima e continuo inseguro, embora um pouco menos. O título parece com os dos filmes de caubói de antigamente, quando cidades do tempo do bangue-bangue nos Estados Unidos viviam entregues a bandidos que usavam tiros até para matar baratas (Glenn Ford uma vez matou uma, enquanto relaxava numa banheira, com o inseparável Colt 45 ao lado; assisti pessoalmente, embora não lembre o título do filme) e temo que o que vou dizer seja tido como uma exortação à transformação dos nossos grandes centros urbanos em cidades do faroeste.

Mas claro que não farei uma exortação desse tipo e a razão é bastante simples. Em primeiro lugar, o que parece não ter importância alguma, sou contra a violência. Em segundo lugar, menos um pouco desimportante, estamos há muito tempo em falta de mocinhos, em todos os níveis de governo. E, agora sim, importante, já vivemos nessa situação há muito tempo. Somos cidades de faroeste, diferençadas apenas por detalhes, como carros e motocicletas, em vez de cavalos, e a ausência de coldres recheados à mostra. De resto, basta pensar e ver que, em cidades onde morre mais gente baleada do que em países em guerra, só podemos ser uma espécie de faroeste.

Já nos acostumamos e por isso mal notamos. Quem nota e pode, vai morar em fortalezas ou complexos penitenciários, eufemisticamente rotulados de “condomínios”, mas na verdade com mais segurança do que a velha Alcatraz, embora inútil pois às vezes os próprios agentes dessa “segurança” estão por trás ou ao lado de sua violação. Quem pode, dá no pé e vai morar em algum país no qual não seja necessário rezar sempre que um filho vai à rua e um celular para cada um desses filhos não é considerado equipamento de segurança indispensável. Quem chega de fora fica assombrado em ver o número de grades pelas quais tudo é cercado, de edifícios a praças públicas, como se fosse normal o cidadão viver por trás de grades, enquanto o pau come solto lá fora.

Nossas medidas pessoais de segurança já estão ficando tão arraigadas que achamos que elas fazem parte natural da vida. E encontramos sempre gente para dizer que nossas cidades são iguais a quaisquer outras grandes cidades do mundo, o que patentemente não é verdade. Acontece todo tipo de crime em muitas cidades grandes e civilizadas no exterior, mas há poucas como, por exemplo, Rio e São Paulo. Não é normal o sujeito ter de andar com documentos e, para não tê-los furtados, ser aconselhado pelas autoridades a portar cópias desses documentos. Não é normal ver a luz verde acesa para os pedestres e esperar que os carros parem mesmo, para ousar atravessar a rua. Não é normal o kit-assalto que muita gente já usa, o qual inclui desde as mencionadas cópias de documentos a bolsos nas cuecas, dinheirinho para o assaltante, relógio para o assaltante, companheiro para ficar do lado de fora enquanto a gente tremulamente vai a um caixa eletrônico, dinheiro maior entre a meia e o sapato e um terço rezado pelas mães, enquanto os filhos adolescentes vão a uma festinha.

Chega dessa besteira de dizer que isso também é normal em Nova York, Paris ou Miami, porque não é. Tampouco é normal ter medo da polícia e de parar para a fiscalização, achando que se trata de uma blitz falsa. Blindar carros de família também não é normal. Botar janelas à prova de balas em apartamentos não é normal. Ter delegacias de polícia invadidas não é normal. Ler todo dia sobre alguém que morreu por bala perdida também não é normal. Ter feriados decretados por bandidos não é normal. Armar guaritas de estilo militar e cancelas à entrada de ruas públicas não é normal.

Mas para nós ficou. E vai piorando. Nada impede, a não ser a organização de uma liderança suficientemente poderosa, que o Rio de Janeiro termine por ser inteiramente dominado por bandidos. Hoje, por exemplo, segundo me dizem, os policiais evitam usar suas identificações funcionais, porque quando chegar a normalíssima hora do assalto ao ônibus, à agência bancária ou mesmo à banca de revistas e os assaltantes descobrirem que um dos presentes é policial, o fuzilam na hora. E, também segundo me dizem, há policiais cujos salários os obrigam a morar em favelas perigosas que não podem deixar a farda lavada secando do lado de fora, para não descobrirem que ali mora um tira e o matarem, ou alguém da família dele.

Para resolver isso, que cresce como um câncer em metástase desenfreada, os governos oferecem palavrório e legislação. Devemos ter as leis mais avançadas do mundo e vêm vindo mais. Por exemplo — e chego finalmente ao ponto mais polêmico — agora o plano é desarmar os cidadãos, proibindo terminantemente o porte de armas, mesmo que exclusivamente dentro de casa. Não tenho arma e sou visceralmente contra seu uso, mas não sou maluco. O cidadão que respeitar a lei não terá mais arma em casa, ou nem mesmo no sitiozinho, onde relaxar virou privilégio de quem pode contratar seguranças e ter cachorros ferozes por tudo quanto é canto. Mas o bandido? Ah, este estará de agora em diante perdido, porque o novo dispositivo legal cerceará sua ação criminosa. Verdade que terá certeza de que poderá entrar na casa de qualquer cidadão ordeiro, porque esse cidadão não contará com uma arma para defender-se. Mas o bandido poderá ser facilmente vencido. Basta que se guarde um exemplar da nova lei para mostrar ao assaltante: “Olhe aí, diz aqui que é proibido o porte de armas.” “Ah, desculpe”, dirá o assaltante, pedindo licença para retirar-se e saindo sem bater a porta. “Foi mal, eu não tinha sido informado.” E não duvido nada que, se o cidadão tiver em casa um revólver, mesmo que não dê um tiro no assaltante, seja preso e processado inafiançavelmente, enquanto o assaltante, réu primário, servirá pena de dois anos em regime semi-aberto. Tudo sob o império da lei.


JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 7:48 PM




Mais um carrinho, só que
esse é brasileirinho e bem ligeiro

*Publicado por Dhuvi-Luvio 7:43 PM





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