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Deixa com o Beque !!

sexta-feira, janeiro 09, 2004



DRINK EXÓTICO

Uma moça e o seu namorado vão a um bar. Ela diz ao seu namorado que tinha ouvido
falar de uma bebida excelente e que ele devia experimentar. A moça pede uma cerveja para
ela, e para o namorado pede um copo de Bailey"s e outro com suco de limão.
Depois diz ao namorado:
- Beba o Bailey"s e guarde dentro da boca, depois beba o suco de limão e tente ficar com a
mistura na boca o maior tempo possível. O rapaz faz o que a namorada diz.
Primeiro o BAILEY"s, causando uma agradável sensação de calor, de doçura, textura cremosa
e uma boa impressão. Em seguida toma o suco de limão. Depois de 3 segundos, a cara do
namorado fica com a cor do suco de limão. O gosto é simplesmente horrível !
Depois de 6 segundos: o rapaz hesita entre vomitar ou engolir a bebida.
Decide engolir. Pê da vida, ele pergunta como se chama esse raio de drink.
Ela diz-lhe ao ouvido:
- Chama-se "a vingança do boquete".

*Publicado por Dhuvi-Luvio 9:11 PM




Happy Tree Friends: o desenho animado que o "Joãozinho, o Monstro" mais gosta...

*Publicado por Dhuvi-Luvio 11:17 AM




Um alemão carioquíssimo

Sou um arrogante, reconheço. Achei que não havia mais aqui no Rio bons botecos que eu não conhecesse. Tamanha soberba foi castigada outro dia, quando um amigo revelou a falha em meu conhecimento etílico-gastronômico-popular: levou-me ao Millleniun Inn, na Rua Djalma Ulrich 49, uma quadra antes da Praia de Copacabana.

Nunca tinha ouvido falar do lugar. Digo mais: se casualmente tivesse passado em frente, não teria entrado. A impressão não é de botequim, mas de um caça-níqueis para turista, com a desvantagem de sequer ficar de frente para o mar. Pois, por trás do nome que não diz nada e da duvidosa decoração, esconde-se um botequim com essência.

Klaus, o dono, é um alemão que apaixonou-se pelo Rio, rasgou a passagem de volta e comprou o ponto. Graças a ele, a casa serve autêntica comida alemã, adaptada para a realidade brasileira nos nomes e nos preços. Lá, um legítimo fleischkase, espécie de salsichão suave em formato de pão de forma, chama-se bolo de carne e custa R$ 5. Há também as salsichas de vitela com mostarda — supimpas, a meros R$ 3,50 — e uma fartíssima sopa de entulho por R$ 4, com direito a duas tigelas.

Para beber, cerveja e chope alemães a preços razoáveis. Uma Erdinger — cerveja de trigo que no Rio só se encontra aqui e acolá — sai por R$ 8,50. O chope é Wersteiner, a R$ 3 a tulipa e R$ 5,50 a caneca.

E tudo isso ainda é um prazer inexplorado. O bar atrai poucos freqüentadores. Basicamente, turistas alemães, alemães cariocas, aposentados e amantes do esporte dos reis. É que a casa, ao lado de uma loja do Jockey Club, serve de posto avançado para as apostas e a torcida. Nas noites de corrida, Klaus bota uma TV no balcão. São os únicos dias em que o Milleniun Inn lota. Pelo menos por enquanto.


(Revista RioShow - Coluna Pé Sujo - Juarez Becoza)

*Publicado por Dhuvi-Luvio 11:02 AM




Fixei a atenção no teto pois não queria mover a cabeça.
Não acredito em coincidências, é apenas o princípio da incerteza...
E se o seu "eu" real tomasse leite do outro lado do espelho ?
Disse que as emoções são desacopladas pelas sinapses e ninguém entendeu...
Quem quer trocar os sentidos comigo ? Plug RCA ou Mini-DIN ?
De repente uma veia bloqueia o fluxo. Sorriso amarelo.
Carência de ânimo e felicidade traz doenças. Todas.
É por isso que ele bebe vinho e se lambuza de azeite de oliva ?
Sei que a imaginação é mais veloz qua a luz, pelo menos a minha.
A ciência está dando olé na religião e na filosofia. Vai chegar lá primeiro.
Vão saber que tudo estava lá na despensa de casa... Vai ser divertido !
E para esquecer a tristeza ele colocou uma música e cantou junto:
"Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança"


O mosquito passou por mim de forma audaciosa.
Podemos comparar vidas pelo tamanho do ser vivo ?
Difere matar uma formiga ou uma baleia ?
Devo agora ouvir as intenções do corpo ?
Pensei na pseudo-prisão da alma. No "dial" da consciência.
Não quero saber de saber nada que outros já saibam.
Só a descoberta me interessa! O intrínseco das entrelinhas...
Mesmo que o novo já esteja escondido aí por muito tempo.
E de repente a música o levantou:
"Uma dor assim pungente
não há de ser inutilmente...
A esperança equilibrista
sabe que o show de todo
artista tem de continuar"

*Publicado por Dhuvi-Luvio 9:16 AM


quinta-feira, janeiro 08, 2004









Atingindo o alvo
(Veríssimo)

Hoje em dia, paranóia é outro nome para realismo. Terrorismo sempre existiu, a novidade — que não começou em 11/9/01 mas universalizou-se espetacularmente com o ataque às torres — é o terrorista suicida. O que mergulha com o avião ou explode com a bomba. O disposto a morrer junto.

O mundo conviveu razoavelmente com o terror convencional, que desafiava autoridades e exércitos mas não atentava contra a sanidade de nações inteiras. A Itália agüentou os seus anos de terror sem sacrificar muito da sua estabilidade institucional, ou o que passa por estabilidade institucional na Itália. Separatistas irlandeses e bascos ainda assustam ingleses e espanhóis mas não transformaram seus países em reféns do medo. Mas primeiro em Israel, onde fez seu aprendizado sangrento, e agora nos Estados Unidos depois do 11/9, o terror suicida abalou tradições e costumes, transformou medo em política nacional e paranóia em sinônimo de avaliação criteriosa. O terrorismo já tinha ajudado a mudar a História do mundo e afetado, radicalmente, a história de suas vítimas, mas nunca tinha atingido um alvo deste tamanho: o espírito de uma época, os hábitos e as expectativas de toda uma civilização.

Há anos Israel vive o dilema de como lidar com o terror insurgente disposto a morrer junto sem recorrer ao terror de Estado. Com uma extrema-direita dura e intransigente no poder, não está conseguindo. Nos Estados Unidos teme-se por direitos constitucionais que ainda podem cair na luta contra o terror — além dos que já estão cambaleando — e aumentam os choques entre uma histórica rotina judicial de proteção do indivíduo contra desmandos do Estado e as medidas de emergência de um estado em pânico. Não ajuda o fato que, mesmo antes de 11/9, o arquiconservador homem da Justiça do governo Bush, John Ashcroft, não era exatamente um paladino dos direitos civis.

A pior novidade trazida pelo terrorista suicida é que mudou o conceito de emergência. Como qualquer mártir ou maluco hoje tem os meios para se explodir em qualquer lugar por qualquer causa, entramos no assustador novo mundo da emergência permanente — onde a menor das nossas preocupações é ter que esperar muito numa fila de aeroporto. E perdeu todo sentido a frase “Onde é que isso vai acabar?”. Não acaba. Ou, para não sucumbir ao fatalismo terminal, ainda mais num começo de verão, não acaba tão cedo. Ou só acaba quando não houver mais mártires e malucos com causa, ou causas com mártires e malucos. E um feliz 2004 para você também.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 1:20 PM


quarta-feira, janeiro 07, 2004


*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:17 PM




Bonequicha: o flash mais engraçado e mais tosco do momento

*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:09 PM


*Publicado por Dhuvi-Luvio 12:53 PM





Grande Espírito

Ó grande espírito cuja voz eu ouço nos ventos e cujo alento dá vida ao mundo todo! Ouve-me! Sou pequeno e fraco. Necessito da Tua força e sabedoria. Deixa-me andar em beleza e faz meus olhos contemplarem sempre o vermelho e púrpura do pôr-do-sol. Faz com que minhas mãos respeitem as coisas que fizeste e que meus ouvidos sejam sensíveis para ouvir a Tua voz. Faz-me sábio para que eu possa compreender as coisas que ensinaste ao meu povo. Deixa-me aprender as lições que escondeste em cada folha, em cada rocha. Busco forças, não para ser maior que meu irmão, mas para lutar contra meu maior inimigo... eu mesmo. Faz-me sempre pronto para chegar a Ti com mãos limpas e olhar firme. Assim, quando a vida se apagar, como se apaga o pôr-do-sol, possa meu espírito chegar a Ti sem se envergonhar.

Publicado pelo Beto Neves, sem menção ao autor, no
Sadseven.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 12:22 PM






*Publicado por Dhuvi-Luvio 9:25 AM


terça-feira, janeiro 06, 2004


*Publicado por Dhuvi-Luvio 11:50 AM



segunda-feira, janeiro 05, 2004



Receita de Ano Novo
(Carlos Drummond de Andrade)

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior) novo,
espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come,
se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro
as coisas mudem e seja tudo claridade,
recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro,
tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.


Atenção, náo perca: se você, assim como eu, não estava na Time Square - NYC
e quer sentir o gostinho de estar lá,
clique aqui e arraste seu mouse
para todas as posições possíveis em todos as direções e sentidos...
Use as teclas "shift" e "control" para "zoom in" e "zoom out"

ENTÃO É ISSO: FELIZ ESSE ANO PARA VOCÊS !!!

*Publicado por Dhuvi-Luvio 8:14 PM





Presentão de ano-novo:
um link para ínumeros álbuns raros de música para downloads.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 4:27 PM


*Publicado por Dhuvi-Luvio 11:07 AM




Conversando com... Jorge Luis Borges
(Carlos Cardoso Aveline - Biosofia.net)



Nada se edifica sobre pedra, tudo sobre areia, mas o nosso dever é edificar como se fora pedra a areia...
Jorge Luis Borges

Em Outubro de 1977 eu morava em Buenos Aires. Um jornalista peruano que visitava a cidade conseguiu, com a minha ajuda indirecta, uma entrevista com o famoso escritor Jorge Luis Borges. A amiga que obteve a conversa privada insistiu em convidar-me: eu deveria ir junto. "Será um prazer", respondi. Às 8 da noite, entardecia quando nós os três batemos à porta do apartamento na rua Maipu, no centro da cidade. A porta abriu-se e a governanta disse-nos: "O senhor saiu, mas mandou dizer que não tarda. Não podem voltar dentro de 15 minutos?" A nossa profunda decepção não durou muito. Dez minutos mais tarde um Galaxie estacionou, e o motorista ajudou o escritor de 78 anos, cego e trôpego, que começou a atravessar a rua movimentada e em obras. O trânsito deteve-se reverentemente. Borges era um símbolo nacional, um sábio, quase um santo. Todos queriam escutá-lo, e na rua não havia quem não o reconhecesse. Embora as suas opiniões políticas paradoxais desagradassem a muitos, ele brilhava como um raio de sol em meio à noite negra da ditadura militar e da violência.

O escritor avançou passo a passo, experimentando o terreno incerto com o olhar sempre fixo no alto. Depois de completar a travessia, caminhou uns 20 metros pela calçada, parou frente à sua porta e tirou, trémulo, uma chave do bolso. Procurou com os dedos o buraco da fechadura, sustentado pelo motorista, e finalmente abriu a porta do edifício. Estava ali a personalidade mais polémica da Argentina. O seu apoio ao general chileno Augusto Pinochet e a sua opinião céptica em relação à realização de eleições no seu próprio país mereciam destaque no jornalismo de Buenos Aires, onde tantas coisas não podiam ser ditas. Mas por detrás das aparências, como eu saberia mais tarde, o velho e sábio escritor estava, misteriosamente, emitindo novos sinais para uma reprogramação saudável da sociedade. Trazia à tona energia positiva do inconsciente colectivo e plantava sementes para uma cultura baseada na ética.



Através de incontáveis palestras e entrevistas, Borges recriava a sua própria pessoa. Construía-se a si mesmo em público como um grande personagem saído das páginas de algum livro mágico, que fascinava com os seus paradoxos, as suas tiradas de humor e ironia profunda em relação aos diversos aspectos da vida: política, literatura, turfe ou futebol. Na sua atitude, colocava sempre em primeiro lugar o assombro diante da vida e, em distante segundo plano, os factos, opiniões e circunstâncias que rodeiam cada ser humano. Falava longamente da sua árvore genealógica, da sua sensação de que o tempo é cíclico e a realidade labirín-tica. No seu talentoso monólogo, a intervenção deste ou daquele jornalista era frequentemente dispensável, embora na verdade tão-pouco chegasse a prejudicar. A fala de Borges era entremeada por longos silêncios em que ele fitava o vazio com uma expressão de esforço estampada no rosto, enquanto parecia buscar a melhor palavra ou modo de dizer. Mas era uma fala tão abundante e encantadora que aceitava facilmente as interrupções e até algumas mudanças aparentes de tema. No fundo, porém, Borges estava sempre a falar de si mesmo, isto é, do seu mundo, do universo segundo a sua sensibilidade.

Durante a nossa conversa, chocou-me a inutilidade das palavras. O silêncio parecia mais eloquente. A minha ignorância dificultava o diálogo e a presença de Borges, tão humilde e tão poderosa, era esmagadora. Eu estava impressionado pela sensação de que as palavras faziam mais ruído do que comunicavam e de que Borges dominava a arte de conversar em silêncio. "Quais foram as suas primeiras leituras?" "Não me lembro de uma época em que não soubesse ler e escrever. Se me dissessem que estas são condições inatas, inerentes ao homem desde o seu nascimento, eu acreditaria, baseado na minha experiência pessoal. Criei-me na biblioteca do meu pai, composta em grande parte por livros ingleses. Li os contos dos irmãos Grimm, li Kipling e mais tarde os contos de Andersen. Criei-me lendo."

Borges elogiou o poeta americano Walt Whitman. Disse que George Orwell (autor de 1984 e O Triunfo dos Porcos) havia sido um pouco pretensioso, e acusou-o de ter pouca imaginação. E lamentou: desde os anos 50 já não podia ler, devido à gradual cegueira que lhe havia trazido para os olhos as sombras da noite. Não conhecia Krishnamurti. "O homem vê-se frequentemente indefeso diante de uma realidade externa que é tremendamente complexa. Arma, então, esquemas e racionalizações para interpretar essa realidade. A história humana é a história dessas tentativas racionalizantes que tantas vezes fracassam. Pensa que tais tentativas têm algo de ilusório na sua origem, que a sua validade é só parcial?" Eu estava aqui a querer fazer uma crítica krishnamurtiana, ou zen, das ideologias políticas. Mas a resposta foi curta: "Não", disse Borges. "O que acontece é que essas racionalizações são parte da realidade que querem explicar. Nós vivemos dos sonhos dos mortos, dos esquemas dos mortos. O mundo pode parecer um caos, mas nós tratamos de que seja um cosmos, uma ordem."

A conversa duraria uma hora, mas, por coincidência, um compromisso do escritor foi desmarcado e ele convidou-nos a jantar num restaurante simples, a um quarteirão de distância. O seu jantar consistiu em arroz puro com queijo ralado e uma banana como sobremesa. Foi interrompido várias vezes por pessoas pedindo autógrafos. Escrevia o seu nome por extenso, a mão trémula fazendo uma letra de pessoa semi-alfabetizada. Borges escreveu um livro sobre Buda, em co-autoria com Alicia Jurado.1 Entre seus autores preferidos estava William James, respeitado pelos estudiosos de ocultismo. Pesquisou e escreveu sobre a Cabala. Foi admirador de Emanuel Swedenborg, o grande místico sueco do século XVIII. A dimensão transcendente de Borges ficou mais clara nos últimos anos de sua vida.



"Perguntaram um dia a Bernard Shaw se ele acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia", contou Borges em uma palestra pública um dia. "E Bernard Shaw respondeu: 'Todo o livro que valha a pena ser lido foi escrito pelo Espírito'." Borges percebia o livro como algo quase mágico. Mesmo cego - podia apenas perceber o vulto de alguém à sua frente -, ele seguia comprando livros. "Eu tenho este culto ao livro. Posso dizê-lo de um modo que pode parecer patético e não quero que seja patético; quero que seja como uma confidência que faço a cada um de vocês; não a todos, mas a cada um de vocês, porque todos é uma abstracção e cada um é verdadeiro. Eu sigo brincando de não ser cego, sigo comprando livros, sigo enchendo a minha casa de livros. Outro dia deram-me uma edição de 1966 da Enciclopédia de Brokhause. Senti a presença desse livro em casa, senti-a como uma espécie de felicidade. Aí estavam vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com os mapas e gravuras que não posso ver e, no entanto, o livro estava ali. Sentia como que uma gravitação amistosa do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que temos, os homens." Numa palestra sobre a imortalidade, Borges citou repetidamente Pitágoras, fazendo um elogio da sua doutrina sobre a transmigração da alma (reencarnação), e investigando a sabedoria de Platão e Sócrates. Na sua entrevista connosco em 1977, disse que no fundo se considerava um anarquista. Ele via o mundo todo como uma única comunidade. "O nacionalismo é o maior problema do nosso tempo. Infelizmente para os homens, o mundo foi parcelado em países, cada um provido de lealdades, de memórias queridas, uma mitologia particular, direitos, fronteiras, bandeiras, escudos e mapas. Enquanto durar este estado arbitrário de coisas, as guerras serão inevitáveis", disse mais tarde noutra entrevista.

E afirmou a outro jornalista: "Quero insistir no facto de que sou pacifista. Neste país havia 82 generais, que depois da derrota na guerra das Malvinas foram reduzidos a 40: agora há, pois, um excesso de 40 generais." O cineasta Ruy Guerra contou que Borges, já quase com 80 anos, passou certa vez três dias intensos dando palestras, participando de almoços e recebendo homenagens na capital do México. Depois disso tudo, havia apenas um dia livre antes de voltar a Buenos Aires. Borges pediu a um amigo argentino que morava na capital do México que o levasse às pirâmides aztecas no Yucatán. O amigo explicou ao velho escritor cego que se tratava de uma viagem extremamente cansativa, entre táxis e aviões. Teriam de viajar o dia inteiro, e só poderiam ficar uma hora no local das pirâmides. Mas Borges não mudou de ideias. E foram até Uxmal. Frente à pirâmide azteca do século X, o escritor sentou-se sobre uma pedra, com o queixo apoiado sobre a bengala, os olhos fixos em algum lugar desconhecido. Levantou-se exactamente uma hora mais tarde, qualificando a sua visita à pirâmide como "inesquecível".3 Os seus olhos brilhavam, mas ninguém sabe o que ele viu ou percebeu por lá.

"O que é o tempo?", perguntou Borges durante uma palestra pública em Buenos Aires. "Não sei se, mesmo depois de 20 ou 30 séculos de meditação, já avançámos muito na questão do tempo. Eu diria que sempre sentimos esta antiga perplexidade, esta que Heráclito sentiu, mortalmente, naquele exemplo a que eu volto sempre: ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Porque é que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio? Em primeiro lugar, porque as águas do rio fluem. Em segundo lugar - e isto é algo que nos toca metafisicamente, que nos dá uma espécie de horror sagrado -, porque nós mesmos somos também um rio, nós também somos flutuantes. O problema do tempo é este. É o problema da fugacidade: o tempo passa." Pouco depois, nesta palestra, Borges retomou o tema da transmigração ou reencarnação. "Talvez sejamos ao mesmo tempo, como querem os panteístas, todos os minerais, todas as plantas, todos os animais, todos os homens. Mas felizmente não o sabemos. Felizmente acreditamos na existência de indivíduos. Porque senão estaríamos esmagados, aniquilados por esta plenitude." Para Borges, o tempo é a imagem móvel da eternidade. "O tempo é sucessivo, porque, tendo saído do eterno, quer voltar ao eterno. Quer dizer, a ideia de futuro corresponde ao nosso desejo de voltar ao princípio. Deus criou o mundo. E todo o mundo, todo o universo das criaturas, quer voltar a este manancial eterno que é intemporal, não anterior nem posterior ao tempo, mas que está fora do tempo."

No final da sua vida, de certo modo, Borges tinha a sensação de que o tempo não havia transcorrido. Dois anos antes de morrer, ele, que havia nascido entre os livros, visi-tou São Paulo e, entre uma palestra e outra, confessou: "Apesar de ter percorrido o mundo todo, tenho a impressão de nunca haver saído da biblioteca do meu pai." A figura de pai, para ele, tinha algo de arquetípico. O seu pai era também seu mestre. Uma vez perguntaram-lhe se acreditava em Deus. "Não acredito em Deus, não consigo", respondeu. "Mas um dia o meu pai disse-me que este universo é tão estranho que pode ser, subitamente, que a Santíssima Trindade exista. Não posso acreditar na pessoa de Deus, mas consigo acreditar em um Deus que está em transformação, como Bernard Shaw disse, um Deus que trabalha através de nós, através das plantas e dos animais."

Quando lhe perguntaram se aceitava ser chamado de génio, defendeu-se: "É uma injúria. Eu sou apenas um homem lúcido, que não tem valor e com pouca esperança. Não há muito o que esperar na minha idade. Eu só gostaria de poder ver mais moralidade, mais ética ao meu redor. Em outros planos e esferas, a economia sempre encontrará alguma solução."



PALAVRAS DE BORGES:

Da Autobiografia:
De algum modo, a juventude parece mais próxima de mim hoje do que quando era moço. Não mais considero a felicidade inatingível como há muito tempo eu a considerava. Agora sei que ela pode acontecer a qualquer momento, mas que nunca deveria ser buscada. Quanto ao fracasso ou à fama, são muito irrelevantes e nunca me preocupei com eles. O que estou procurando agora é a paz, a alegria de pensar e da amizade, e, embora possa parecer demasiada ambição, uma sensação de amar e de ser amado.

(Do Volume "Jorge Luis Borges; 'Elogio da Sombra' e 'Um Ensaio Autobiográfico', Ed. Globo, S. Paulo, Brasil, ver pp. 59-60 e 122)

De "Fragmentos de um Evangelho Apócrifo":

3 Mal-aventurado o pobre de espírito, porque sob a terra será o que é agora na terra.
4 Mal-aventurado o que chora, pois já cultiva o hábito infeliz do pranto.
5 Afortunados os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.
6 Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.
7 Feliz o que não insiste em ter razão, pois ninguém a tem ou todos a têm.
8 Feliz o que perdoa os outros e o que perdoa a si mesmo.
9 Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem à discórdia.
10 Bem-aventurados os que têm fome de justiça, porque sabem que a nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.
11 Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.
12 Bem-aventurados os de coração limpo, porque vêem Deus.
13 Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça do que o seu destino humano.
14 Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento da sua vida, não o é.
15 Que a luz de uma lâmpada se acenda, mesmo que nenhum homem a veja. Deus a verá.
16 Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.
17 Aquele que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.
18 Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.
19 Não odeies o teu inimigo, pois se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que a tua paz.
20 Se a tua mão direita te ofender, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, senão impossível, fixar a fronteira que os divide...
24 Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao cabo de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
25 Não jures, pois todo juramento é uma ênfase.
26 Resiste ao mal, porém sem espanto e sem ira. A quem te ferir na face direita, podes voltar a outra, desde que não te mova o temor.
27 Não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
28 Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29 Fazer o bem ao teu inimigo é a melhor forma de satisfazer a tua vaidade.
30 Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
31 Pensa que os outros são justos ou sê-lo-ão, e se não for assim, não é teu o erro.
32 Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida.
33 Dá o que é santo aos cães, joga tuas pérolas aos porcos; o importante é dar.
34 Procura pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar...
39 A porta é que escolhe, não o homem.
40 Não julgues a árvore por seus frutos, nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.
41 Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia...
47 Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.
48 Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas.
49 Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio ou de Cristo, pois estas darão luz aos seus dias.
50 Felizes os amados, os que amam e os que podem prescindir do amor.
51 Felizes os felizes.


*Publicado por Dhuvi-Luvio 11:04 AM




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