<body>

Deixa com o Beque !!

sexta-feira, fevereiro 13, 2004



Metade antes - Metade depois

*Publicado por Dhuvi-Luvio 8:15 AM


quinta-feira, fevereiro 12, 2004



Dicas rápidas para não foder os outros motoristas que sabem dirigir no caótico trânsito de Curitiba.


1. No sinaleiro, deixe a porra da primeira marcha engatada e quando o sinal abrir arranque. Não espere que o lazarento de trás tenha que te lembrar.

2. Você dirige um carro e não uma jamanta, certo? Portanto, você não precisa usar a porra da pista da esquerda antes para virar para a direita .

3. Quando um outro motorista der pisca avisando que precisa entrar na pista que você está, deixe de ser filho da puta e deixe o cara passar. Certamente vai acontecer com você um dia e você não quer se estressar.

4. Faixas no asfalto das rápidas e ruas com mais de uma pista não são para enfeite nem para se basear por onde tem que andar, e se você não tem inteligência suficiente para saber onde estão as rodas do seu carro, melhor andar de bicicleta que as rodas são vistas de onde você está sentado.

5. Se você não sabe fazer baliza, tenha humildade para parar num estacionamento e não foda a vida de quem tá com pressa. Ah! Se você não gosta do seu carro, problema seu. Isso não quer dizer que os outros motoristas acham legal que fiquem dando totó nos seus carros para saber se está perto.

6. Largue de ser cavalo e aprenda que se a merda da placa do radar diz 60Km/h, é 60 de verdade, e não é 20Km/h disfarçado, porra !!!!!

7. A vida anda muito corrida, por isso, se você gosta de passear pelo centrão a 30Km/h, faça isso as 05h00 da manhã.

8. Essa é boa !!! Que tal dar sinal de que vai entrar em alguma rua se você percebe que tem algum motorista esperando sua importante escolha ?

9. Se o cuzão do seu namorado vai te deixar na frente do shopping, deixem as preliminares para um local apropriado. Certamente não vai ser a última vez que você o vê, portanto, dê tchau e suma do carro !!!!

10. Essa é pra você, frustrado sexual que adora botar o rabo numa Harley: Por que você não bota a orelha na merda do escapamento aberto e acelera ? Todo mundo sabe que o barulho da sua moto é inversamente proporcional ao seu tato com as mulheres.

11. Nossa, um acidente !!! Qualé, nunca viu uma lanterna quebrada ? Então você não precisa ficar olhando com cara de retardado pra qualquer coisinha que acontece no trânsito e andando como se estivesse num cortejo fúnebre.

12. Só pra descontrair: Saiba que todo mundo tira você pra comédia quando te vêm com a cara colada no volante. Assim não precisa nem usar o cinto de segurança. Num acidente a sua cara e o painel vão virar a mesma coisa com ou sem cinto.

13. Especial para nossos amigos da Polícia Rodoviária: Se é dia de movimento intenso, que tal sair da frente da pôrra do seu postinho já que é só pra ficar embaçando ? Que tal desligar a luzes da viatura se não tem nada acontecendo ? Que tal tirar aquelas merdas de cones do meio da estrada? Que tal cuidar de quem anda pelo acostamento ao invés de ficar revirando o carro dos outros pra achar uma ponta de baseado e dizer: Ahaaaaa !!!! Como que a gente "acertamos agora ?"

*Publicado por Dhuvi-Luvio 7:02 AM


quarta-feira, fevereiro 11, 2004



Evito qualquer contato com estranhos. Se, na fila da padaria, um simpático estranho me dá bom-dia, finjo que não ouço e viro a cara. Se outro estranho fala ao celular perto de mim, afasto-me para não escutar sua conversa. Se ele está para se afogar no mar, dou vigorosas braçadas na direção oposta. Ontem saí com um caderninho e anotei todas as palavras que dirigi a estranhos. No bar, às 10: "Um café, por favor. Obrigado". No açougue, logo em seguida: "Dois bifes de fígado, por favor. Quanto é? Obrigado". De novo no bar, às 5 da tarde: "Um café, por favor. Obrigado". Dia perfeito: no total, dezenove palavras trocadas com desconhecidos. E mais umas dezenove com as pessoas que amo. É meu ideal de convivência humana. Se todos os dias fossem assim, eu seria um homem imensamente feliz. O problema é que sempre ocorrem imprevistos. Hoje, por exemplo, telefonou-me um vendedor de móveis. Fui obrigado a desperdiçar quatro palavras: "Não me interessa, obrigado".
Para gente como eu, nada pior do que bate-papo na internet. A essência da internet é justamente essa: um monte de estranhos ociosos puxando conversa com você. Algumas semanas atrás, ao recolher material para um artigo, meti-me num bate-papo eletrônico. O que vi foi uma rapaziada analfabeta lançando desaforos. Nada contra desaforos. Na maioria dos casos, são perfeitamente justificados. Quem entra nesses bate-papos eletrônicos merece ser coberto de insultos. É a qualidade dos insultos que não satisfaz. Muito palavrão e pouco deboche. E uma infinidade de erros ortográficos. Um dos únicos avanços indiscutíveis do computador foi a correção automática, que supriu algumas das deficiências do nosso sistema educacional, reconhecidamente um dos piores do mundo. Sugiro que os provedores de acesso à internet instalem um programa de correção automática nas seções de bate-papo. A palavra grafada de maneira incorreta seria sublinhada de vermelho, para que todos os usuários pudessem ver o erro e cobrissem de insultos seu autor.


A internet se gaba de representar a modernidade, mas as seções de bate-papo pareceram-me idênticas ao velho trote telefônico. Aconselharam-me a visitá-las de madrugada, quando a rapaziada mal-educada já foi dormir. Pus o despertador para as 3 e comecei a navegar. Talvez você não saiba, mas as seções de bate-papo são divididas por salas, cada qual com um número limitado de pessoas. As salas costumam ter um tema. O UOL oferece desde a sala Gazeta de Praia Grande até a do Papo-Cabeça. (Exemplo de papo-cabeça: "O gato comeu seus dedinhos?" "Xatoooooo". "Cê pediu bakaxi?") O Terra vai do Clube do Whisky ao Digimon. O Globo, do Banheiro Feminino ao Sobrenaturais. Na verdade, as salas quase sempre permanecem desertas. Exceto as que tratam de sexo. Estas ficam lotadas. Passei uma hora espiando os internautas trocarem confidências amorosas e fui dormir. Achei ainda mais aborrecido que a rapaziada dos palavrões. Em vez de trote telefônico, pareceu-me igual a linha cruzada. Em linha cruzada, é costume você ouvir as pessoas se queixarem de úlcera ou de dor de dente. Nunca acontece de ouvir uma conversa realmente picante, como a de um juiz pedindo para um construtor depositar uma grande quantidade de dólares em sua conta bancária em Miami. Bate-papo eletrônico também é assim: uma gente anônima que, sob anonimato, fala coisas anônimas.
Outro jeito de entrar em contato com desconhecidos através da internet é o correio sentimental. Publica-se um anúncio exaltando as próprias virtudes e aguardam-se eventuais respostas dos interessados, pelo e-mail. Dei uma olhada nos serviços oferecidos pelos provedores e escolhi o Amigos Virtuais, do UOL. Para participar dessa seção é necessário preencher um longo questionário, que destruiu minha auto-estima. "Escreva algo bem chamativo sobre você", diz o questionário. Eu não tenho nada de chamativo. "E um bom motivo para as pessoas escreverem para você." Pensei bastante e não consegui descobrir nenhum bom motivo. "Última chance de dizer algo inteligente sobre você." E perdi minha última chance. O questionário também é muito pormenorizado no que se refere ao aspecto físico dos anunciantes, indo de sua cor de pele até o uso de aparelho nos dentes. Há perguntas metafísicas: "Se você pudesse ser teletransportado agora, para onde iria?" Há perguntas sobre suas mais profundas convicções: "Por quem você arriscaria sua vida?" E, entre as áreas de interesse, ao lado de baralho, literatura ou futebol, encontra-se, curiosamente, homossexualismo. Primeiro, os brasileiros censuram as novelas de TV; depois, consideram o homossexualismo uma mera área de interesse. Falta critério neste país. Seja como for, completei o questionário e fiquei esperando ansiosamente as respostas de minhas pretendentes. Fracasso. A única que me escreveu foi a pouco seletiva Marta: "Estou desesperada por amigo. Se quizer (sic) saber mais de mim, me escreva. Um beijo deste tamanho ó". Bateu-me uma forte depressão.
Mas a internet não tem só gente desconhecida. Diariamente, os provedores convidam celebridades para bater papo com os navegantes. É o fascínio da internet: ela cria a ilusão democratizante de que todos, diante do computador, são iguais. Nem todas as celebridades que batem papo na rede, porém, merecem o título de celebridades. Acabo de ver o programa de hoje do Terra. A primeira entrevistada é Gogoy Zucolli, taróloga, que faz previsões para 2001. A seguir, vem o DJ Rica Amaral, organizador da rave XXXperience. Por fim, Simone Ruhmann, estrela do ensaio fotográfico de Drauzzio Tuzzulo. Os provedores também fornecem o endereço eletrônico de personalidades, para que você possa escrever diretamente para elas. Fiz uma tentativa. Escrevi para Zé do Caixão, Fernando Henrique Cardoso e Vampeta. O único que respondeu foi Vampeta. Ou melhor, seu respondedor automático, que me enviou a seguinte mensagem: "Continue acessando o site Vampeta para concorrer a prêmios e ficar por dentro das novidades relacionadas a seu ídolo". Vampeta não é meu ídolo. Meu ídolo é Romário. Só que não encontrei o endereço dele.
Os freqüentadores de internet fazem questão de emitir opiniões sobre tudo. Existem seções dedicadas especialmente a isso. São os chamados fóruns ou murais, espaços em que os internautas debatem filmes, política, esportes, religião ou notícias de jornal. Quer saber o que Kleber Antonio pensa a respeito das privatizações? Ou a opinião de Gilvane Sabino sobre o espiritismo? Ou o que Patriky sentiu quando perdeu a namorada para seu melhor amigo? Não? Eu também não quero. Por mais que os internautas insistam em nos dizer. Uma maneira bem mais rápida de dar a própria opinião é a Enquete. Todos os dias os provedores lançam uma pesquisa bastante esquemática. Basta apertar um botãozinho para manifestar seu apoio à eutanásia, ou escolher o roteirista de Star Trek X, ou eleger seu tipo preferido de biquíni, ou protestar contra o crescimento do bairro da Granja Viana.
Como sempre desconfio dos brasileiros, resolvi comparar nossos bate-papos com os estrangeiros. Escolhi o que me pareceu mais sério: Abuzz. Você faz uma pergunta e os leitores do jornal The New York Times, por algum motivo, respondem. Levei vários dias para inventar uma pergunta que sintetizasse minhas atuais dúvidas e preocupações em relação ao mundo. Afinal, resolvi perguntar qual era a melhor cura para os gases intestinais de meu filho recém-nascido. Recebi dezenas de respostas. Em todas, transparecia a suspeita de que eu era um mau pai, e que deveria consultar um psicólogo. Francamente, sinto-me mais em casa com os palavrões da rapaziada analfabeta.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 4:48 PM





Uma bibliografia básica para quem quer compreender a aventura da humanidade
Por Paulo Francis

Pedem minha ficha acadêmica para jovens vestibulandos...Não tenho. Tentei um mestrado na Universidade Columbia em Nova York 1954, mas desisti, aconselhado pelo professor-catedrático Eric Bentley. Achou que eu perdia o meu tempo. Li toda a literatura relevante, de Ésquilo a Beckett, e sabia praticamente de cor a Poética de Aristóteles. Em alguns meses se lê tudo que há de importante em teatro. Li e reli anos a fio.

Mas, sem o doutorado ou nem sequer mestrado, me proponho fazer algumas indicações aos jovens, que, no meu tempo, seriam supérfluas, mas que, hoje, talvez tenham o sabor de novidade. Falo de se obter cultura geral. É fácil.

Educação era a transmissão de um acúmulo de conhecimentos. Hoje, é uma adulação da juventude, que supostamente deve fazer o que bem entende, estar na sua, como dizem, e o resultado é que os reitores de universidades sugerem que não haja mais nota mínima de admissão, que se deixe entrar quem tiver nota menos baixa. Deve haver exceções, caso contrário o mundo civilizado acabaria, mas a crise é real, denunciada por gente como o príncipe Charles, herdeiro do trono inglês, e por intelectuais como Alan Bloom, que consideram a universidade perdida nos EUA. No Brasil, houve a Reforma Passarinho nos anos 60. A ditadura militar tinha o mesmo vício da esquerda. Queria ser popular. Era populista. Quis facilitar o acesso universitário ao povo, como resa o catecismo populista. Ameaça generalizar o analfabetismo.

Não há alternativa à leitura. Me proponho apontar alguns livros essenciais ao jovem, um programa mínimo mesmo, mas que, se cumprido, aumentará dramaticamente a compreensão do estudante do mundo em que está vivendo.

Começando pelo Brasil, é indispensável a leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha. É curto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio Quadros fala. É cara do far-te-ei, a forma oblíqua de que Jânio se gaba. Mas o livro é de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como cultura, como organização do Estado. Euclides mostra o choque central entre o Brasil que descende da Europa e o Brasil tropicalista, nativo, selvagem. Euclides apresenta argumentos hoje superados sobre a superioridade da Europa, mas nem por isso deixa de estar certo. Tudo bem ter simpatia pelo índio e o sertanejo, o matuto, mas nosso destino é ser, à brasileira, à nossa moda, um país moderno nos moldes da civilização européia. Euclides começou o livro para destruir Antônio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um grande épico, em prosa, que o poeta americano Robert Lowell, que só leu a tradução, considera superior a Guerra e Paz, de Tolstoi.
Mas o importante para o jovem é essa escolha entre o primitivo irredentista dos Canudos e a civilização moderna, porque é o que terá de enfrentar no cotidiano brasileiro. É o nosso drama irresolvido.

Leia algum dos grandes romances de Machado de Assis. O mais brilhante é Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para estilo, é o que se deve emular. O coloquialismo melodioso e fluente de Machado. É um grande divertimento esse livro. Eu recomendaria ainda para os que tem dificuldade de manejar a lingua O Memorial de Aires. É o livro mais bem escrito em português que há.

Os gregos são um dos nossos berços. Representam a luz e a doçura, na frase de um educador inglês, Mathew Arnold (também poeta e crítico). Arnold falava contra a tradição judaico-cristã, dominante na nossa cultura, na nossa vida, a da Bíblia e do Novo Testamento, que predominaram no mundo ocidental desde o século 5 da Era Cristã, quando o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo. Estudos gregos sérios só começaram no século 19, quando se tornaram currículo universitário, porque antes os padres e pastores não deixavam.
Mas leia originais. Escolhi quatro. Depois de se informar sobre Platão na enciclopédia do seu gosto, se deve ler A Apologia, que é a explicação de Sócrates a seus críticos, quando foi condenado à morte, e Simpósio, um diálogo de Platão. Platão não confiava na palavra escrita. Dizia que era morta. Preferia a forma de diálogo.
Na Apologia se discute o que é mais importante na vida intelectual. A liberdade de ter opiniões contra as ortodoxias do dia. Ajudará o estudante a pensar por si próprio e ter a coragem de suas convicções.
Depois, o delicioso Simpósio. É uma discussão sobre o amor, tudo que você precisa saber sobre o amor sensual, o altruístico, o que chamam de platônico, é o amor centrado na sabedoria.
Platão colocou, à parte Sócrates, seu ídolo, no Diálogo, Aristófanes, o grande gozador de Sócrates. Na boca de Aristófanes põe uma de suas idéias mais originais. Que o ser humano era hermafrodita, parte homem parte mulher, e que cada pessoa, depois da separação, procura recuperar sua parte perdida, e daí a predestinação da mulher certa para um homem e do homem certo para uma mulher.

Imprescindível também ler As Vidas, de Plutarco, o grande biógrafo da Antiguidade. Ficamos sabendo como eram os grandes nomes em carne e osso, de Alexandre, paranóico, a Júlio Cesar, contido, a Antônio e Cleópatra. Shakespeare baseou grande parte de suas peças em Plutarco e leu em tradução inglesa, porque Shakespeare, como nós, não sabia latim ou grego. E, finalmente, como história, leia A Guerra do Peloponeso, de Tucídides. É sobre a guerra entre Atenas, Esparta, Corinto e outras, durante 27 anos, no século 5 antes de Cristo. Lendo sobre Péricles, o líder ateniense, Cléon, o führer espartano, e Alcebíades, o belo, jovem e traiçoeiro Alcebiades, nunca mais nos surpreenderemos com qualquer ato de político em nossos dias. É o maior livro de história já escrito. Sempre atual.

Da Roma original basta ler Os Doze Césares, de Suetônio, e Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon. Mais um banho de natureza humana.

Meu conhecimento científico é quase nenhum. Mas lí, claro, a Lógica da Pesquisa Científica, de Karl Popper, quando entendi o que esses cabras querem. Para quem quer um começo apenas, recomendo o prefácio do Novum Organum, de Francis Bacon, que quer dizer, o título, novo instrumento, e Bacon explica o método científico e o que objetiva a ciência. E para complementá-lo leia o prefácio dos Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Isaac Newton, e o prefácio de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead de seus Principios da Matemática. Também vale a pena ler a História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell, e o capítulo sobre Positivismo Lógico, que é a filosofia calcada no conhecimento científico. Em resumo, tudo que pode ser provado lógica e matematicamente, é filosofia.O resto não é. Acho isso perfeitamente aceitável. Dispenso o resto.

É nas artes que está a sabedoria. Como viver bem sem ler Hamlet, de Shakespeare? Está tudo lá em linguagem incomparável, é de uma clareza exemplar, tudo que nós já sentimos, viremos a sentir, ou possamos sentir.
Preferi citar junto com Shakespeare uma peça grega, que considero vital: Antígona, de Sófocles. Há uma tradução de Antígona, em verso, por Guilherme de Almeida, que Cacilda Becker representou no Teatro Brasileiro de Comédia.
Antígona é o que há de melhor na mulher. É a jovem princesa cujos irmãos morreram em rebelião contra o tio, o rei Creon, e ela quer enterrá-los, porque na religião grega espíritos não descansam enquanto os corpos não são enterrados. Creon não quer que sejam enterrados, como advertência pública a subversivos. Antígona desafia Creon. Ele manda matá-la. Ela morre. Seu noivo se suicida. É o filho de Creon, que enlouquece. Parece um dramalhão, mas não é. É a alma feminina devassada em toda sua possibilidade fraterna. Hegel achava que Antígona era o choque de dois direitos, o direito individual e o direito do Estado. E assim definiu a tragédia.

A melhor história de Roma é a de Theodore Mommsem. A melhor história da Renascença é a de Jacob Buckhardt. Tudo que você precisa saber.
E aprenda com um dos mais famosos autodidatas, Bernard Shaw (o outro é Trotski). Leia todos os prefácios das peças dele. São uma história universal. Um estalo de Vieira na nossa cabeça. Em um dia você lê todos. Anotando, uma semana. Também vale a pena ler a Pequena História do Mundo, de H.G.Wells, superada em muitos sentidos, mas insuperável como literatura.

Passo tranquilo pelo Iluminismo. Foi tão incorporado a nossa vida, que não é necessário ler Voltaire ou Diderot. Os livros de Peter Gay sobre o Iluminismo são excelentes. Dizem tudo que se precisa saber. Se se quer saber mesmo o que foi o cristianismo, a obra insuperada e As Confissões de Santo Agostinho, uma das grandes autobiografias, à parte a questão religiosa.

Não é preciso ler A Origem das Espécies, de Darwin, mas é um prazer ler Viagens de um Naturalista ao redor do Mundo, as aventuras de Darwin como botânico e zoólogo, a bordo do navio inglês Beagle, nos anos 1830, pela América do Sul, com páginas inesquecíveis sobre Argentina, Brasil e Galápagos, que está até hoje como Darwin encontrou (e o Brasil e Argentina, na sua alma?)

Houve três grandes revoluções no mundo, a americana, a francesa e a russa. A literatura não poderia ser mais copiosa. Mas basta ler, por exemplo, Cidadãos, de Simon Schama, para se ter um relato esplêndido da revolução interrompida, 1789-1794, na França, e concluir com o livro de Edmund Wilson, Rumo à Estação Finlândia. Schama é conservador, Wilson não era, quando escreveu, fazia fé, ainda na década de 30, como tanta gente, na Revolução Russa. Mas a esta altura, e mesmo antes de ele morrer, em 1972, é fácil notar que a Revolução Russa não teve o Terror interrompido, como a Francesa, mas continuou até Gorbachev revelar o seu imenso fracasso.
O melhor livro sobre a Revolução Francesa é História da Revolução em França, de Edmund Burke, de 1790, que previu o Terror de Robespierre e Saint-Just. Se o estudante quer um livro a favor da Revolução Francesa, leia, o título é o de sempre, o de Gaetano Salvemini. A favor da russa a de Sukhanov, que a Oxford University Press resumiu num volume, ou A Revolução Russa, de Trotski, um clássico revolucionário. Mas os fatos falam mais alto que o brilho literário de Trotski.
Sobre a Revolução Americana não conheço livro bom algum traduzido, mas por tamanho e qualidade, um volume só, sugiro a da editora Longman, A History of the United States of America, do jovem historiador inglês Hugh Brogan, 749 págs, apenas, quando comprei custava US$ 25. Tem tudo que é importante.

Em economia, a Abril publicou 50 volumes dos principais economistas. Eu não perderia tempo. Têm tanta relação com a nossa vida como tiveram Zélia e a criançada assessora. Mas há o Dicionário de Economia, também da Abril. Quando tascarem o jargão, você consulta para saber, ao menos, o que significa a embromação. Economia se resume na frase do português: quem não tem competência não se estabelece.

Dos romances do século 19, Guerra e Paz, de Tolstoi, e Crime e Castigo, de Dostoiewski, me parecem absolutamente indispensáveis. Guerra e Paz porque é o retrato completo de uma sociedade como uma grande familia, porque rimos e choramos sem parar, porque contém um mundo e as inquietações do protagonista, Pierre Bezhukov, que até hoje não foram respondidas. Crime e Castigo, porque exemplifica toda a filosofia de Nietzsche de uma maneira acessível e profundamente dramática, de como o cérebro humano é capaz de racionalizar qualquer crime, que tudo é relativo, em suma, a pessoa que pensa e age, como Raskolnikoff, o protagonista. Vale tudo. Dostoiewski, para nos impedir de aniquilar uns aos outros, acrescenta que não se pode viver sem piedade.

Dos modernos, Proust é maravilhoso, mas penoso, Joyce é desnecessário, mas vale a pena ler as obras-primas de Thomas Mann, A Montanha Mágica, para saber o que foi discutido filosoficamente neste século, e Dr Fausto, que leva o relativismo niilista que domina a cultura moderna e de que precisamos nos livrar, se vamos sobreviver culturalmente, como civilização, e não como meros consumidores, num nível abjeto de satisfação animal.

Há muitas obras que me encantaram e não estou, de forma alguma, excluindo autores ou quaisquer livros. A lista que fiz me parece o básico. Em algumas semanas, duas horas por dia, se lê tudo. Duvido que se ensine qualquer coisa de semelhante nas nossas universidades. Se eu estiver enganado, dou com muito prazer a mão à palmatória.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 4:40 PM





Mulher de cabelos escuros e olhos azuis. Olga Benário nasceu em Munique, cidade alemã. Desde cedo participou de atividades comunistas. Fica famosa na Europa por libertar da polícia seu companheiro socialista e também namorado usando armas descarregadas.
Tendo grande coragem e audácia é graduada pelo Comintern, recebeu uma das mais importantes tarefas de sua vida: ser a guarda-costas de Luís Carlos Prestes, seu futuro marido.
No Brasil, já casada com Luís Carlos Prestes, chefe da chamada "Intentona Comunista", Olga foi fundamental para o andamento da revolução. Morando no Rio de Janeiro, através das inúmeras reuniões, Olga conviveu com todos os integrantes da liderança do movimento no meio do qual nasceram grandes amizades.
Com o fracasso da revolução, a casa onde ela e Prestes se escondiam é invadida por policiais prontos para matar o chefe comunista. Olga protege o marido e impede sua morte. Os dois acabam sendo presos. Olga, na prisão descobre estar grávida de Prestes e aos sete meses de gravidez, é entregue a Hitler por Vargas. Sendo deportada para a Alemanha e longe do Brasil, país que aprendeu a admirar e a amar, Olga Benário tem sua primeira e única filha, Anita Leocádia, uma alegria no meio de tanto sofrimento.
Em um dos campos de concentração da Alemanha nazista, Olga vivencia os últimos dias de sua vida, até ser morta por um gás letal.



CARTA DE DESPEDIDA - OLGA BENÁRIO

Queridos:

Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha carta de despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte.

Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Conformar-me-ei, mesmo que não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver-me dado ambos. Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz t sentes por nossa filha?

Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão por que se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue.
Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte. Beijo-os pela última vez.


*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:44 PM




O Suicídio é uma Solução?

Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos atos, da realidade. Não acredito em coisa alguma à qual eu não esteja ligado pela sensibilidade de um cordão pensante, como que meteórico e ainda assim sinto falta de mais meteoros em ação. A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade. O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota dos homens bem-pensantes, mas o estado propriamente dito do suicídio me é incomprensível. O suicídio de um neurastênico não tem qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um homem que tiver determinado seu suicídio, suas circunstâncias materiais e o momento do seu desfecho maravilhoso. Desconheço o que sejam as coisas, ignoro todo o estado humano, nada no mundo se volta para mim, dá voltas em mim. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri faz tempo, já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer. Mas que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu capenga, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir.

Retirado de Escritos de Antonin Artaud - L&PM Editores - Tradução, seleção e notas de Claudio Willer

Baixe aqui o livro Escritos de um louco, de Antonin Artaud

*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:34 PM


*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:21 PM


terça-feira, fevereiro 10, 2004



*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:52 PM




Meu poeta favorito. Curitibano, boêmio e incuravelmente apaixonado pela poesia. Paulo Leminski nasceu em 1944 e suas palavras revolucionaram o conceito da poesia de vanguarda. "Foi um poeta beatnik por excelência". Beatniks eram uma espécie de rebeldes, marginais surgidos na década de 50 e que deram origem ao movimento hippie. Pertence a um integrante deste grupo a seguinte frase: "Vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura."

Sua obra chegou ao público numa época em que se configurava o desgaste das experiências de vanguarda dos concretistas e em que a poesia marginal, que na década de 70 primou pela desconstração e rebeldia, contrária a toda forma de poder (político, literário e social), dava o último suspiro. E Leminski soube fundir as duas maneiras de se escrever com tal primor, que se tornou o maior nome da poesia nacional dos anos 80.

Tal magia há em suas palavras que até hoje ainda não houve quem se dedicasse a fazer uma análise mais profunda de tudo que Leminski criou, algo como uma tese de mestrado ou doutorado. Talvez porque saibam que não é uma tarefa nada fácil, já que não há uma linha coerente entre os trabalhos, Leminski não pode ser divido em fases. Ou talvez porque "sua obra não tenha passado pelo crivo do Tempo", como me disse certa vez Antonio Torres - se bem que eu não concordo com este ponto de vista.

O fato é que a obra de Leminski continua esperando por uma crítica desapaixonada. Mesmo os jornalistas e críticos literários que já se propuseram a escrever sobre ele não conseguiram fazê-lo sem amor ou ódio.

Ele teve o primeiro contatos com os concretistas paulistas em 1963, na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda e já no ano seguinte teve cinco textos publicados na revista Invenção, porta-voz dos concretistas. A opinião destes autores sempre foi algo importante para Leminski, embora algumas vezes os questione: "e se o povo todo gostar do verso, o que é que a gente faz? expulsa o povo?"

Leminski morreu em junho de 1989. Sua terra natal homenageou o poeta dando seu nome à pedreira onde rolam os melhores shows que Curitiba já viu. A prova de que sua obra já passou pelo crivo do tempo está em todas as livrarias do país: o livro Os 100 Melhores Poemas do Século possui poemas dele. Vários, por sinal.



Seguem algumas citações sobre o poeta e um poema de sua autoria:

O meio é a mensagem

O grande mérito de Leminski foi conseguir uma síntese do concretismo, tropicalismo e poesia marginal. Com ele, a poesia "cerebral", sustentada principalmente na construção da linguagem e do significante - e levada ao extremo pelo concretismo na década de 50-, restabeleceu o fôlego, continuando a ocupar espaço no marasmo literário da década de 80.
Como poucos, Leminski foi um dos poetas que mais esteve em consonância com seu tempo. Ele viveu um verdadeiro corpo a corpo com a poesia. Não só produziu como "falou" de poesia. Foi leitor das teorias de comunicação de massa na década de 70 e trouxe o mote publicitário para a sua obra. Enquando para Marshall McLuhan, o meio é mensagem, para Leminski o trabalho com a linguagem (torcida, estilhaçada e polissêmica) é que era a mensagem.
As paronomásias (emprego de palavras semelhantes no som, porém diversas na significação), trocadilhos, jogos de palavras, ritmos, rimas de efeito, assonâncias, aliterações estão numa escala superior, acima da visão conteudística. Mas após Caprichos & Relaxos, como diria alguns críticos, a fórmula da poesia de Leminski começou a dar sinais de cansaço. O novo ficou velho demais para continuar mantendo o ambicioso projeto vanguardista, para seguir a linha de raciocínio de Miguel Sanches.
De forma que em se tratando da poesia desse bardo a frase dita por Antônio Cândido na Reunião do Ciclo de Debates sobre Cultura Brasileira, realizada em maio de 1975, para analisar a literatura daqueles tempos já soaria como algo distante: "A vanguarda, por definição, é algo provisório, e em nosso tempo, não só no Brasil como no mundo, há uma tendência para transformar o provisório em permanente". (Trecho de reportagem do jornal Gazeta do Povo, de junho de 2000).

"A sua poesia da pressa de viver, com saques breves, brincadeiras de linguagem e afirmações adolescentes, serviu como formadora de um público em busca de uma tradição poética não professoral. (…)Como mito pop, ele morre para manter-se vivo". (Miguel Sanches Neto)

"Dicção rala, idéias curtas, cultura de almanaque, arritmia crônica, berimbau de barbante, razionale de bar, ethos de radialista, estética de violão, filosofia de publicitário, ritmos de mingau, versalhada instantânea e rimas de muleta: eis a receita de dezenas de milhares de polket poets à la Paulo Leminski, o homem intensamente comum cuja ingenuidade agitada o fazia macaquear a gagueira de toda uma leva de quase autores." (Bruno Tolentino)

"Leminski foi mastigado por conservadores e vanguardistas. Há os que o atacam só por ódio a seu amor pela ruptura - conservadores; os que fazem uma defesa parcial de sua obra - vanguardistas em busca de herdeiros; e por fim os que o petrificam querendo fazer dele um símbolo que jamais foi." (José Castelo)

"Sua dicção poética cheia de saques, piques, toques e baques, trocadilhesca e regida pelo impulso lúdico, caracteriza um poesia cerebral, sempre em busca do sentido que está além dos significado". (Denise Azevedo Duarte Guimarães)

"Todo poeta é um caçador de ambigüidades. Leminski sempre caçou muito bem". (Wellington Wella)

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Paulo Leminski

*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:47 PM



segunda-feira, fevereiro 09, 2004



Histórias reais sobre infidelidade - Elas por Elas

I. A técnica do sabonete

Um escritor amigo de um amigo meu tinha uma técnica que considerava infalível: carregava na pasta de trabalho o mesmo sabonete que usava em casa.

Se rolasse alguma escapada para um motel, ele tomava seu banho tranqüilo, certo de que o cheiro não despertaria nenhuma suspeita.

II. A técnica da cerveja

Já um amigo de um amigo meu usava outra técnica: sempre que saía de um motel, dava uma paradinha num posto de gasolina e comprava uma lata de cerveja.

Derramava a cerveja na barba, esperava secar e seguia em frente.

III.Assim não...

Ele costumava chegar em casa tarde da noite, depois de beber no bar com os amigos. A mulher já não se incomodava com o horário em que o marido entrasse em casa.

Mas numa noite, ele foi expulso a tapas, enquanto ela gritava:

- Chegar em casa tarde tudo bem, mas com cheiro de buceta não!

IV. Até na água

Uma amiga de uma amiga minha achava que nada disso adianta. Segundo ela, até água de motel tem um cheiro específico. Ou talvez seja o ar refrigerado, a roupa de cama, o mofo do quarto.

O fato é que ela considerava completamente impossível a passada pelo motel, que ela atribuia semelhanças aos trens fantasmas dos parques de diversões.

Foi essa sua indisposição pelos motéis que a levou a encerrar o último caso extra-conjugal.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 6:48 PM





O apanhador no campo de centeio

Na cidade de Nova York, no dia 16 de julho de 1951, foi publicado o livro O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye). Sempre que é fim de década ou século são escolhidos as melhores obras do período, discos e livros em especial. O Apanhador recebeu no último ano um mísero 64º lugar na lista dos cem melhores romances do século XX escritos em língua inglesa. Se levarmos em conta esta lista, fica difícil acreditar que neste meio século o romance de J. D. Salinger tenha vendido, todos os anos, mais de 250 mil exemplares.
A história do livro não é surpreendente, mas encanta os leitores mais atentos aos detalhes das obras de linguagem simples. O personagem principal, Holden Caufield, um garoto de 16 anos, é expulso, pela quinta vez, de um colégio na Pensilvânia. Este é o ponto inicial da obra; a partir daí, Caufield, sem avisar seus pais, viaja para Nova York, onde anda pelas ruas frias e com enfeites natalinos, hospeda-se num hotel barato e paga as despesas com o dinheiro que ganhou de sua avó, leva a namorada ao teatro, vai ao cinema, se embebeda e conversa com freiras.
Caufield vive num momento histórico de grandes perturbações. Em agosto de 1949 a União Soviética explode a sua primeira bomba atômica, e dá início à corrida armamentista. No início de 1950 o presidente norte-americano Truman anuncia que mandou desenvolver a bomba de hidrogênio. No mesmo ano, em outubro é proclamada a criação da República Popular da China. E ainda é realizada a primeira ofensiva vietcongue contra as tropas francesas na Indochina. Neste contexto, Holden é só mais um que vive entre os túmulos da civilização ocidental.
No meio de toda esta loucura, tudo o que Holden deseja é salvar as crianças que estão próximas de cair no abismo do campo de centeio. "Fico imaginando todas aquelas criancinhas brincando e jogando neste grande campo de centeio e tudo mais. Milhares de crianças e não há ninguém por perto - ninguém grande, quero dizer - exceto eu. E estou de pé na beira de algum penhasco maluco. O que eu tenho de fazer, eu tenho que apanhar todo mundo se começarem a correr sem olhar e sem saber para onde estão indo, eu tenho que sair de algum lugar e apanha-los. É o que eu faria o dia inteiro, eu seria apenas o apanhador no campo de centeio e tudo mais.", diz Caulfield no trecho do livro que explica o significado do título. Isso tudo é uma metáfora que representa o crescimento da criança. O abismo seria a idade adulta, incorretamente chamada de maturidade. Holden, no original em inglês, refere-se aos adultos como "phonies", o que os caracteriza como "falsos".
A simpatia que Holden causa aos leitores se dá pela simplicidade e profundidade dos seus sentimento. Fica difícil não se interessar por um personagem que está preocupado com os patos dos lagos do Central Park: para onde vão os patos quando o lago fica congelado?
É estranho imaginar que um livro com um enredo tão humano possa ter entrado para a história de alguns dos crimes mais famosos das últimas décadas. Mark David Chapman carregava no bolso de sua jaqueta um exemplar de O Apanhador e um revólver, quando, em dezembro de 1980, matou John Lennon com cinco tiros em frente ao Edifício Dakota, esquina com o Central Park. Em março de 1981 outro exemplar do livro foi encontrado entre os pertences de John W. Hinckley Jr., que tentou matar o presidente norte-americano Ronald Reagan por causa da atriz Jodie Foster.
Não se pode julgar o livro a partir dos seus leitores um tanto ...loucos. O Apanhador no Campo de Centeio é um clássico da literatura universal, e é indicado principalmente para os jovens com a mesma idade de Caulfield, por volta dos 16 anos. É melhor lê-lo à borda do abismo do que no seu fundo.


Se você se interessou,
baixe aqui o livro e o leia por inteiro

*Publicado por Dhuvi-Luvio 6:32 PM


VOCÊ É ANARQUISTA?
(a resposta pode ser uma surpresa!)

Há toda a probabilidade de já ter ouvido algo sobre quem são os anarquistas e naquilo em que supostamente acreditam. Há toda a probabilidade de que quase tudo o que ouviu dizer sobre eles seja falso. Muitas pessoas parece que pensam que os anarquistas são adeptos da violência, do caos e da destruição, que se opõe a todas as formas de ordem e de organização, que são niilistas fanáticos que querem rebentar com tudo. Na realidade, nada poderia ser mais longe da verdade. Anarquistas, são as pessoas que simplesmente pensam que os seres humanos podem comportar-se de modo razoável sem terem de ser coagidos a isso. É uma noção muito simples, realmente. Mas é aquela noção que os ricos e os poderosos sempre acharam a mais perigosa.
Na sua expressão mais simples, as crenças anarquistas giram em torno de duas premissas. A primeira é que os seres humanos são, em circunstâncias vulgares, tão razoáveis e decentes quanto lhes permitam ser, e portanto que se podem auto-organizar e às suas comunidades sem necessitarem que lhe indiquem como. A segunda é que o poder corrompe. Antes do mais, o anarquismo é antes uma questão de ter a coragem de tomar os princípios simples de decência comum pelos quais nos guiamos e de os seguir até às suas conclusões lógicas. Por muito insólito que isto pareça, em muitos aspectos importantes, você já é anarquista – apenas não se apercebe disso.
Talvez ajude tomar alguns exemplos do dia a dia:
• Se há uma fila para apanhar um autocarro quase cheio, vai esperar pela sua vez e refrear-se de passar à frente das outras pessoas, mesmo na ausência de polícia?
Se respondeu “sim”, então está habituado/a a agir como anarquista! O princípio anarquista mais fundamental é “auto-organização”: o assumir-se que os seres humanos não precisam ser ameaçados com sanções em ordem a alcançarem um grau de compreensão recíproca de uns com os outros, ou de tratar cada qual com dignidade e respeito.
Qualquer pessoa pensa que é capaz de se conduzir de maneira razoável. Se pensa que a lei e a polícia são necessárias, é apenas porque não acreditem que outras pessoas o sejam. Mas se parar para reflectir, não terão elas o direito de pensar exactamente o mesmo em relação a si? Os anarquistas argumentam que quase todo o comportamento anti-social que nos faz pensar que é necessária a existência de forces armadas, de polícia, de prisões e de governos para controlar as nossas vidas, é de facto causado pelas desigualdades sistemáticas e injustiça que tais forças armadas, polícia, prisões e governos tornam possível. É tudo um círculo vicioso. Se as pessoas estão acostumadas a serem tratadas como se as suas opiniões não importam, é provável que se tornem agressivas e cínicas, mesmo violentas – o que, claro, torna a tarefa fácil para os que estão no poder em dizer que as suas opiniões não contam. Logo que se apercebem que as suas opiniões realmente são importantes tal como as de qualquer outra pessoa, tendem a tornar-se muitíssimo mais abertas. Para abreviar uma longa história: os anarquistas acreditam que, em grande parte, é o próprio poder e as consequências desse mesmo poder, que tornam as pessoas estúpidas e irresponsáveis.
• É membro de um clube desportivo ou equipa de desporto ou de qualquer outra organização voluntária onde as decisões não sejam impostas por um chefe mas tomadas na base do consenso geral?
Se respondeu “sim”, então pertence a uma organização que trabalha de acordo com os princípios anarquistas! Outro princípio básico é a associação voluntária. Isto é apenas uma questão de aplicar os princípios democráticos à vida de todos os dias. A única diferença é que os anarquistas acreditam que deveria ser possível que existisse uma sociedade em que cada coisa fosse organizada segundo esses princípios, todos os grupos baseados no consentimento livre de seus membros, e portanto, todo esse estilo de organização de-cima-para-baixo, militar como os exércitos, ou as burocracias ou as grandes corporações, baseadas em cadeias de comando, já não seriam necessárias. Talvez não acredite que tal seja jamais possível. Talvez sim. Mas de cada vez que chega a um acordo por consenso, em vez de ameaça, cada vez que faz uma combinação voluntária com outra pessoa, chega a um reconhecimento recíproco ou alcança um compromisso tendo na devida consideração a situação ou necessidades particulares do outro, está sendo um/a anarquista, mesmo se não tem consciência disso.
O anarquismo é apenas o modo como as pessoas agem quando têm liberdade para agir de acordo com a sua escolha e quando negoceiam com os outros que são igualmente livres – e portanto, conscientes da responsabilidade face aos outros que isso implica. Isto conduz a outro ponto crucial: enquanto as pessoas podem ser razoáveis e terem consideração enquanto estão intercambiando com iguais, a natureza humana é tal que não se pode acreditar que o façam quando se lhes dá poder sobre os outros. Dê a alguém tal poder, essa pessoa irá abusar dele de uma forma ou de outra.
• Pensa que a maioria dos políticos são porcos egocêntricos, egoístas, que não se importam realmente com o interesse público? Pensa que vivemos num sistema económico que é estúpido e injusto?
Se respondeu “sim”, então subscreve a crítica anarquista da sociedade contemporânea – pelo menos nos seus aspectos mais gerais. Os/as anarquistas pensam que o poder corrompe e que aqueles/as que passam a vida inteira em busca de poder são as últimas pessoas a quem ele deveria ser dado. Os/as anarquistas pensam que o nosso sistema económico actual tem mais probabilidades de premiar as pessoas por comportamentos egoístas ou sem escrúpulos do que as que são seres humanos decentes, preocupados com os outros. A maioria das pessoas tem esses sentimentos. A única diferença é que a maioria das pessoas não acredita que nada possa ser feito acerca disso ou de que – e é nisto o que os fiéis servidores do poder costumam insistir) – possa ser feito algo que não acabe por tornar as coisas ainda piores.
Mas…e se não fosse verdade?
Haverá realmente uma razão válida para acreditar nisso? Quando se pode realmente testá-las, a maioria das previsões sobre o que aconteceria sem estados ou capitalismo acaba por se mostrar realmente não fundamentada.
Durante milhares de anos as pessoas viveram sem governos. Em muitas partes do mundo há povos que vivem for a do controlo dos governos, mesmo nos dias de hoje. Eles não se andam a matar reciprocamente. Apenas vivem as suas vidas, como qualquer outra pessoa faria. Claro que numa sociedade complexa, urbana, tecnológica há muito mais necessidade de organização: mas a tecnologia pode também tornar esses problemas mais fáceis de resolver. De facto, nem sequer começámos a pensar como seriam as nossas vidas se a tecnologia fosse posta realmente ao serviço das necessidades dos humanos. Quantas horas precisaríamos de trabalhar em ordem a manter a sociedade funcional – ou seja, se nos víssemos livres das ocupações inúteis ou destrutivas como o telemarketing, os advogados, os guardas prisionais, os analistas financeiros, os peritos de relações humanas, os burocratas e os políticos e redireccionar as nossas melhores cabeças científicas dos sistemas de armamento espaciais ou do mercados de acções para mecanizarem as tarefas maçadoras ou perigosas tais como mineração de carvão ou limpeza da casa de banho, e distribuir o trabalho remanescente por todas as pessoas igualmente? Quatro horas por dia? três ? duas? Ninguém sabe porque ninguém está sequer a perguntar este tipo de pergunta. Os/as anarquistas pensam que estas são exactamente o tipo de perguntas que deveríamos começar a perguntar.
• Acredita realmente nas coisas que diz aos seus filhos (ou que os seus pais lhe contaram)?
"Não importa quem começou." "Dois males não fazem um bem." "Limpa tu mesmo/a o chiqueiro que fizeste" "Faz, pensando nos outros..." "Não sejas mesquinho/a com as pessoas porque te parecem diferentes." Talvez devêssemos decidir se estamos mentindo aos nossos filhos quando lhes falamos do bem e do mal, ou se estamos realmente a tomar a sério as nossas próprias sentenças. Porque se levar estes princípios morais às suas conclusões lógicas, chega ao anarquismo.
Tome o princípio de que dois males somados não produzem um bem. Se tomasse isso realmente a sério, apenas isso bastaria para deitar por terra, quase totalmente, a base de todo o sistema bélico e de justiça criminal. O mesmo se passa com a partilha: estamos sempre a dizer às crianças que têm da aprender a partilhar, a terem em conta as necessidades de uns e de outros, a ajudarem-se mutuamente; depois, quando vamos para o mundo real assumimos que cada um é naturalmente egoísta e competitivo. Um/a anarquista irá chamar a atenção: de facto, o que dizemos aos nossos filhos está certo. Muito do que foi alcançado na história da humanidade, cada descoberta ou feito que melhorou a vida das pessoas, veio por cooperação e ajuda mútua; mesmo agora, a maior parte de nós gasta mais com sua família e com os amigos do que connosco próprios; embora, sem dúvida, irá sempre haver pessoas competitivas neste mundo, não é uma razão para a sociedade basear-se no encorajamento de tal comportamento e muito menos fazer as pessoas competir para alcançar as necessidades básicas da vida. Uma sociedade que apenas encoraja a competição, apenas serve os interesses dos que estão no poder, que querem que vivamos com receio um do outro. Por isso é que os/as anarquistas propõem uma sociedade baseada não só na associação livre mas também na ajuda mútua.
O facto é que a maior parte das crianças cresce acreditando numa moral anarquista e gradualmente têm de aperceber-se que o mundo adulto não funciona dessa maneira. Eis porque tantos adultos são rebeldes, alienados ou até suicidas enquanto adolescentes, acabando por se resignarem e azedarem quando adultos; a sua única compensação, frequentemente, é ter capacidade para educar os seus próprios filhos e desejar que para estes o mundo seja justo. Mas porque não começarmos por construir um mundo que seja realmente baseado nos princípios da justiça? Não seria esse o melhor presente que poderíamos dar aos nossos filhos?
• Acredita que o ser humano é fundamentalmente corrupto e mau ou que alguns tipos de pessoas (mulheres, pessoas de cor, povo comum que não é nem rico nem tem estudos) são espécimes inferiores, destinados a serem governados por alguém melhor que eles?
Se a sua resposta é “sim”, então, bem, parece que não é anarquista ao fim e ao cabo. Mas se respondeu “não”, então há probabilidades de que já perfilhe 90% dos princípios anarquistas, e – esperamos - esteja a viver a sua vida de acordo com eles. Sempre que tratar outro ser humano com consideração e respeito está sendo anarquista. De cada vez que resolve as suas divergências com outros através de um compromisso razoável, ouvindo o que cada um tem para dizer em vez de deixar que alguém decida em nome das restantes, está sendo anarquista. De cada vez que tem oportunidade de forçar alguém a fazer algo, mas, em vez disso, decide apelar ao seu senso de razão ou de justiça, está sendo anarquista. O mesmo se passa quando partilha algo com um/a amigo/a, ou decide quem vai lavar a loiça, ou outra coisa com um sentido de equidade.
Claro, poderá objectar que tudo bem enquanto se trata de pequenos grupos de pessoas que se relacionam mutuamente, mas para gerir uma cidade ou um país, é um assunto totalmente diferente. E, claro, isto tem razão de ser. Mesmo se descentralizar a sociedade e puser tanto poder quanto possível nas mãos de pequenas comunidades, haverá – apesar de tudo- imensas coisas que precisam de ser coordenadas, desde administrar caminhos de ferro até decidir sobre que aspectos a investigação em medicina se deve debruçar. Mas apenas porque algo é complicado não quer dizer que não haja maneira de realizá-lo. Apenas quer dizer que será complicado. De facto, os/as anarquistas têm muitas ideias sobre como é que uma sociedade saudável, democrática deveria autogerir-se. Para as explicar é preciso de ir muito para além deste pequeno texto introdutório; de qualquer forma, não há nenhum/a anarquista que pretenda possuir o modelo perfeito. A verdade é que nem conseguimos imaginar metade dos problemas que irão surgir quando tentarmos criar uma sociedade democrática; mesmo assim, acreditamos que a capacidade dos humanos está à altura de resolvê-los desde que a humanidade se conserve dentro do espírito de nossos princípios básicos- tais princípios são, ao fim e ao cabo, apenas os princípios de decência humana fundamental.


Nola Anarchy

*Publicado por Dhuvi-Luvio 5:44 PM




Nome : Dhuvi-Lúvio
Local: Batel-Pr
Email para mim


EM CURITIBA

Links
Antigos

Powered by Blogger
Site Meter