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Deixa com o Beque !!

sexta-feira, março 26, 2004



Afghan Whigs é uma banda que nasceu na cela de uma cadeia, quando seu vocalista, completamente bêbado, achou que seria uma boa idéia roubar policiais. Enjaulados, sem nada para fazer, resolveram montar uma banda.
Uma das melhores dos últimos tempos... Palavra de quem não queria parar de ouvir Led Zeppelin...


I KEEP COMING BACK - ALBUM GENTLEMEN vai para a antologia do Rock

*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:39 PM


*Publicado por Dhuvi-Luvio 12:08 PM




Os Perigos da Filosofia
(Millor Fernandes)

E como estavam ali há tanto tempo juntos, aqueles quatro moços e o professor, um pouco mais velho, este propôs-lhes uma lição, um teste filosófico: "Meus amigos, companheiros, meus, por assim dizer, discípulos. Estamos aqui, neste aposento praticamente vazio.

Pois bem, digamos que cada um de vocês tivesse que encher esse espaço. Qual seria a maneira mais rápida e mais útil de encher este quarto? Responda você primeiro, José". E José, o mais velho dos moços, respondeu: "Eu encheria de palha. Seria uma maneira muito rápida de encher o quarto, porque a palha é leve e fácil de transportar e extremamente útil, pois com ela se poderiam tecer cestas e sobre elas se poderia descansar melhor.

O professor esclareceu: "Você deu resposta brilhante, rápida e válida, e parece que quem errou fui eu. Embora a palha seja realmente uma coisa extremamente útil, eu preferia que a sugestão ficasse clara: é encher o quarto compacta, totalmente. Você agora, Mário". Mário, o mais magro de todos respondeu: "Eu encheria tudo de areia. Também é fácil de transportar e o quarto ficaria cheio. Poderíamos deitar sobre a areia, uma vez seca, ou usá-la como defesa, nos olhos de alguém que nos atacasse". "Muito bem", aceitou o professor mais velho. "Mas não haverá idéia que resolva melhor a proposta do teste, Eusebio? Eusebio, o barbado, que já tinha tido tempo de pensar, disse: "Acho que sim. Eu encheria o aposento com água. Aí ele estaria cheio, completamente mesmo, não se poderia encher o quarto mais rapidamente, pois bastaria deixar a bica do banheiro aberta algum tempo. Além disso, todos sabem, existe coisa mais útil que a água?" "Você ganhou, realmente, na rapidez e na utilidade, Eusebio ", disse o professor, "Mas se esqueceu de um ponto negativo – morreríamos todos afogados. Que diz você, Ivan? E Ivan, o mais dotado de todos, respondeu docemente: "Da maneira mais simples, mais rápida, da única maneira verdadeiramente útil porque se poderia aproveitar o espaço". Dirigiu-se até a parede, girou o comutador e o aposento encheu-se de luz. "Admirável! Correto! Perfeito!" disse o professor. "Realmente ninguém pode viver sem luz, a luz é que alimenta o mundo, a luz é que torna possível a saúde e a reprodução da espécie. Sem falar na simbologia, pois a luz representa o que há de mais..." Porém, antes que ele acabasse de falar, a polícia que estava vigiando o edifício há vários dias, vendo que havia luz na janela, invadiu o ‘aparelho’ e prendeu todo mundo.


MORAL: QUEM ESTÁ NA MERDA NÃO FILOSOFA.
SUBMORAL: DA DISCUSSÃO NASCE A LUZ. E DA LUZ?

*Publicado por Dhuvi-Luvio 11:32 AM





(Renato Machado - RioShow)

De volta aos brancos

Volto aos brancos por caprichosa teimosia e torno a dizer que o melhor vinho que já tomei é um branco. Aliás, são brancos pelo menos quatro dos melhores que existem. Ainda me espanto com a preferência das pessoas por tintos, que acabam sendo na média menos cuidados porque a quantidade é maior. Quando o vinicultor tem a certeza de que a venda vai ser segura, sem sustos, a tendência é produzir em larga escala e negligenciar a qualidade. Um amigo me contou que a proporção de venda em restaurantes é de dez tintos para um branco. É injusto.

Será mesmo o toque feminino? As mulheres, ouvi dizer, preferem a textura aveludada dos tintos, refúgio sempre seguro nos momentos de incerteza. Nada mais vago que uma carta de vinhos sem explicações.

Como o homem que convida dá à mulher homenageada a primeira palavra na escolha, no caso de um jantar a dois, por exemplo, fica-se no tinto. É o que me conta a gente do negócio, que segue com atenção o ritmo das mesas.

Além do mais, os brancos são produzidos em menor escala em todos os países vinícolas. Em Bordeaux, onde se respiram vinhos e até as placas na estrada têm a forma de garrafas, o primado do tinto é indiscutível. Não é por outra razão que o nome designa uma cor, vermelho escuro, mais profundo que a cor granada (que, por sinal, vem da uva grenache, vinho também, e dos bons, no Sul da França e na Espanha).

Os bordaleses dedicam-se ao branco como hobby, quase um luxo de donos de castelo que precisam se distrair com algo exótico. Estamos falando de brancos secos, com gosto e aroma de frutas e, às vezes, de flor, aqueles vinhos que recendem a natureza, a campo e a pomar.

Os licorosos de Bordeaux, os sauternes, construíram seu universo de fortuna e excelência à parte. Foram imitados no mundo inteiro. São eles os brancos de Bordeaux representados nas listas de leilões, chegando a preços indecentes. Mas se olharmos bem um sauternes envelhecido, ele não é branco: é dourado, tendendo ao laranja.

Já os brancos frutados instigam o produtor como um desafio. Na minha roda de amigos, costumamos dizer que só quem faz grandes tintos pode fazer um bom branco. Para que o branco seja de alto nível, a mão do produtor terá que transformar mais seriamente a planta e a terra.

Quem só faz brancos, como antigamente os alemães, os austríacos, os alsacianos e grande parte dos produtores do Loire, sabe que está diante de uma realidade muito mais frágil, sensível ao clima e sobretudo à luz. Não se guarda por muito tempo um branco — a não ser com cuidados extremos e mesmo assim se a linhagem dele for irretocável.

Mesmo o champanhe, príncipe de todos os vinhos, estável e acessível a milhões por toda parte, precisa de atenção na guarda. Vai compensar essa dedicação de forma surpreendente. Um champanhe de boa safra, envelhecido dez anos, existe sozinho. Não precisa ter nada à volta.

A lista dos melhores? A Borgonha impera, e nela o Montrachet reina. Vêm a seguir o Corton-Charlemagne, o Meursault, o Chablis Grand Cru, borguinhões gloriosos. De Bordeaux, o Laville Haut Brion e o Carbonnieux. Um ou dois rieslings da Alsácia. E do Loire, um de Pouilly, o outro de Savennières e uma última vaga para o sauvignon blanc de Sancerre, que vai disputá-la com um neozelandês audacioso.

Vinhos brancos, frutas cítricas, jardins. É tudo parecido.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 10:24 AM




Sexta-Feira 13 da Paixão
(Arthut Dapieve - O Globo)

Dei 30 dinheiros a Mel Gibson. Quinze pratas do meu ingresso, quinze pratas do ingresso de minha mulher. No entanto, nós é que fomos traídos, porque ainda esperávamos assistir a um filme religioso, forte e polêmico mas religioso, e encontramos tão-somente um filme de terror. A quantidade de sangue espirrado, pele lacerada, costelas expostas e, de quebra, uns monstrinhos patéticos à guisa de demônios deixou-nos na expectativa, durante a sessão no Roxy, de que a qualquer momento Jason Voorhees, sua máscara de hóquei, seus objetos cortantes e o título “Jason takes Jerusalem” iriam aparecer na tela.

Minha primeira lembrança associada à sétima arte é a de uma Sexta-Feira Santa em que minha mãe me levou para assistir a uma versão cinematográfica da Paixão de Cristo numa sala de Ipanema. Diante de todo o sofrimento na tela, eu, desesperado, pedi para sairmos no meio da sessão. Fui para casa aos prantos. A história nos Evangelhos nunca precisou (até Gibson entrar em cena) que algum artista transformasse sua obra em mesa de autópsia para tocar as pessoas. As descrições de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João são contundentes o bastante para dispensarem a violência explícita.

Este “A Paixão de Cristo” tem, alegadamente, preocupações com a veracidade dos fatos, preocupações traduzidas, por exemplo, nos diálogos em aramaico, hebraico e latim. Segundo dom Geraldo Magella, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Gibson foi “bastante fiel aos relatos bíblicos”. Não tendo, nem de longe, o saber e a autoridade moral do religioso, tenho dúvidas se “fiel” é a palavra mais adequada. “Literal” talvez fosse o correto. Ao se transplantar qualquer obra de um meio para outro, ser fiel e ser literal raramente são sinônimos. Gibson pegou tudo ao pé da letra.

Não há, entretanto, muitas evidências históricas dos eventos narrados na “Bíblia”. Inclusive porque muitos deles têm caráter simbólico, e daí extraem sua extraordinária força. Jesus mesmo se expressava por meio de parábolas. Como, então, tratar “com veracidade” algo que é fundamentalmente alegórico? Incapaz de sutilezas, Gibson optou por um sadismo que não encontramos nem no mais realista filme de guerra, apenas nos filmes do terror menos psicológico, mais visceral. É um sadismo com o próprio personagem, acompanhado na Sua agonia em detalhes implacáveis, e é um sadismo com o espectador, tornado cúmplice desse voyeurismo pela identificação primária com a câmera.

Num texto de 1957 sobre o erotismo, o crítico francês André Bazin escreveu: “Se desejamos permanecer no plano da arte, devemos nos ater ao imaginário. Devo considerar o que se passa na tela como uma simples história, uma evocação que jamais se passa no plano da realidade, a não ser que me sujeite à transferência cúmplice de um ato ou, ao menos, de uma emoção, cuja realização exige o segredo. O que significa que o cinema pode dizer tudo, mas não de forma alguma tudo mostrar. Não há situações sexuais, morais ou não, escandalosas ou banais, normais ou patológicas, cuja expressão na tela seja proibida a priori , com a condição, porém, de se recorrer às possibilidades de abstração da linguagem cinematográfica, de modo que a imagem jamais assuma valor documental.”

Em nome da sua verdade, Gibson disseca Jesus de maneira pornográfica. Mostra, não sugere. Sua volúpia pela Carne é tamanha que esvazia o Espírito. Esfolado vivo, Jesus perde a transcendência. De nada adiantam os flashbacks, minúsculos intervalos na tortura, para devolver-Lhe a beleza da mensagem. Porque o diretor despreza a inteligência do espectador e manipula sua emoção da mais feia maneira possível. O homem Jesus cai sob o peso da cruz, Maria se lembra do menino Jesus que caiu no quintal de casa etc. Seu filho sofre, muito, e morre. Mas em nome do quê? Essa vanidade se agrava quando, após Seu último suspiro, passa-se do meramente ruim ao terrivelmente constrangedor.

Todavia, a violência de “A Paixão de Cristo” não me pareceu anti-semita, apenas cega. Quando Jesus (Jim Caviezel, de “Além da linha vermelha”, bom ator incapaz de atuar sob tanta maquilagem de carne viva) é preso e levado ao Sinédrio, alguns judeus se retiram, denunciando a inexistência de acusações palpáveis, a farsa do processo e da convocação noturna. No decorrer de todo o filme, os habitantes de Jerusalém se dividem: uns escarnecem do suposto blasfemador, outros pedem que cesse a barbárie dos romanos. Ou seja, há judeus bons e judeus maus, assim como há romanos bons e romanos maus.

(Embora um Pilatos atormentado seja discutível diante da própria alegação de apego à veracidade histórica do filme, o ator Hristo Shopov torna seu personagem interessante.)

Por fim, cabe notar que a aprovação da CNBB a “A Paixão de Cristo” cria um paradoxo. Se Gibson fez uma obra hiperviolenta e se a Igreja condena a violência, inclusive no cinema e na TV, estaria agora abrindo uma exceção para a violência com causa, para a violência em tese a serviço da fé? Não creio. Contudo, a contradição está instalada, e se torna perigosa porque, justamente na Terra Santa, ela alimenta, de lado a lado, as políticas de infinitas retaliações com homens-bomba e assassinatos nem sempre seletivos.

Essa, aliás, é uma questão que me tem obsedado: não apenas falhamos em resolver o conflito no Oriente Médio como deixamos que ele se espalhasse pelo resto do mundo.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 10:10 AM



quinta-feira, março 25, 2004



Ser humano é aceitar nosso viés humano
Por Hernani Dimantas

O Brasil está no Orkut. Apesar das reclamações dos usuários contra o contrato de adesão. Ninguem tá nem aí. 3,15% da rede do Orkut é tupiniquim. E, subindo.

Mas o que é o Orkut? É mais um software de networking. Nada de novo. Nada diferente do Friendster. Ou de outras dezenas de softwares com características parecidas. Orkut pertence ao Google. E isso faz alguma diferença na selva digital.

É interessante observar a rede crescendo. Não só os amigos, mas os amigos dos amigos. Um monte de gente que já vimos em listas de debates, em blogs ou por aí.

Minha crítica principal está na incoerência em linkar pessoas para
estabelecer uma rede. O fato de conhecer alguém não significa muita coisa. A linkania se dá numa rede dialética. Os mercados são conversações. Orkut, a priori, parecia não estabelecer interatividade.

Já percebi que estou enganado. Há uma preocupação demasiada em tentar encontrar deficiências no Orkut. Conversando com o Celso Goya concluímos que o Orkut finciona. Ora, o pessoal tá animado com o debate, todo mundo está interagindo; pois não somos meros desconhecidos. Esse é o ponto.

Isso tem lógica. Pois se não tivessemos interagindo. Pergunto: Que
estamos fazendo lá? Brincando de figurinha. Pois, eu não estou lá para isso. Tento, sob o domínio do tempo, participar das comunidades. E buscar por pessoas que são do meu interesse. Seja para fazer parte da revolução, seja para entrar no 'seleto' grupo de parceiros comerciais. Afinal, o uso que faço da rede também significa negócios. E, sinceramente, não tenho vergonha nenhuma de pensar assim.

Acho que existe um preconceito inerente do interneteiro brasileiro. Eu vi acontecer a mesma coisa no começo da blogosfera. Os blogs eram tratados como modismo, diários pessoais, bobinho e descartável. Passou algum tempo para perceber que não era nada disso. Esse papo é paradoxal. Uma dose de autopunição. Por uma lado existe uma necessidade de ver e ser visto. E, por outro, uma necessidade de manter uma ética extremada.

O Orkut expõe o ser humano frente a suas próprias fraquezas. Fazer amigos é um ato de oportunidade. Tanto no mundo real, como no digital. Add your friend significa 'oi, posso te linkar'. Mas o que significa linkar ou inkania? Pense nisso.

Eu tenho levantado algumas questões e colocado no scrapbook (um rascunho para escrever no Orkut ). Creio que adicionar valor à Internet reduz o seu valor. Ou seja, se você otimiza uma rede para um tipo de aplicação, você está deixando outras aplicações de fora. As redes sociais deveriam ser mais abertas, conversar entre elas. Penso também que esses softwares devem conversar com o resto da rede.

Conviver em rede pressupõe reputação. Extrapolando a metáfora dos scrapsbooks, testemunhos ou fãs, reputação tem mais a ver com projeto pessoal. Blogs e sites pessoais (ou coletivos) apresentam, em tempo real, o resumo do sujeito. Basta colocar alguns feeders (agregadores) e rssficar que teríamos as condições lógicas de interatividade entre redes. O blog + RSS + feeders + networking possibilitam uma leitura mais inteligente deste caminho virtual.

Pois, o Orkut como uma rede simbólica. Uma simulação da rede caótica que acontece na internet. Uma rede que já existe muito antes do Orkut. Mas invisível aos olhos míopes. A maioria dos meus links no Orkut são pessoas conhecidas. Alguns gringos conheço pelo trabalho, outros brazucas conheço de listas, poucos não conhecia até então. E, muitos outros, ainda nem contatei. Por que? Nem eu posso responder. Talvez pelo medo que não seja aceito por um grupo ou por outro. É tudo fruto da imaginação humana.

Linkar é bom. É um ato de generosidade. Ser linkado também é legal. E mais, ser reconhecido pelo trabalho, seja este um blog, um cargo importante na IBM, um pensamento inovador, uma tese de mestrado, um projeto 'duca' que emergiu das comunidades digitais ou qualquer outra coisa, é muito bom. Creio que ser humano é aceitar nosso viés humano.

Aceitar o reconhecimento e reconhecer nos outros as suas qualidades. É só tomar cuidado para não exagerar na dose.


Hernani Dimantas - Pós graduado em Marketing - FGV-SP, consultor em Privacidade e Marketing, editor da revista Buzzine e das e-Zines Marketing Hacker e Mercado Hype . É colunista de diversos sites e revistas. Membro do núcleo de redação da Novae

*Publicado por Dhuvi-Luvio 10:02 PM




Este texto foi publicado originalmente em junho de 1968 como uma brochura do grupo inglês Solidarity. Ainda que não traga assinatura, o texto é com frequência atribuído a Maurice Brinton, o que também não ajuda muito na identificação das origens: Maurice Brinton seria o pseudônimo de um famoso neurocirurgião de Londres. Apesar dos mistérios, o Solidarity foi talvez o principal grupo a desenvolver uma crítica marxista libertária na Inglaterra dos anos 60 e 70.

O Solidarity surgiu no início dos anos 60 a partir de uma dissidência da trotskista Socialist Labour League1. O Solidarity acabou se aproximando do grupo francês Socialisme ou Barbarie, outra dissidência do trotskismo. Brinton e seus companheiros foram os responsáveis pelas primeiras traduções dos textos do S ou B para o inglês e são frequentemente confundidos como sendo uma ala inglesa do grupo francês. Mas enquanto que o S ou B entrou em crise já na primeira metade dos anos 60, deixou de existir e seu principal nome, Cornelius Castoriadis, acabou desistindo da idéia de revolução, o Solidarity continuou na ativa até meados dos anos 80.

Naquele final de 1967, o Solidarity foi um dos raros grupos marxistas a perceber de imediato os rumos que tomava o movimento estudantil na França. Por isso, já estavam em uma posição privilegiada para observar o que aconteceu em maio do ano seguinte. Como estrangeiros puderam circular de maneira mais livre em meio a guerra interna de tendências que acontecia em Sorbonne. Como aqueles que já entendiam com profundidade as discussões em andamento, souberam estar nos momentos certos, nos lugares certos.

Muito já escreveu sobre o Maio de 68. Já nos meses seguintes ao acontecimento as livrarias francesas estavam cheias de livros sobre o tema. Mas raros textos, se é que algum, têm o frescor deste testemunho.


Via Baderna.Org

Download do Livro - Paris Maio de 68

*Publicado por Dhuvi-Luvio 9:55 PM



segunda-feira, março 22, 2004



*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:54 PM




CÉLULAS DA ESPERANÇA
(Revista Veja)

As primeiras terapias com células-tronco da medula óssea e do cordão umbilical surgiram na década de 80. Pensava-se que seu efeito regenerador fosse limitado ao tratamento de doenças malignas do sangue, as leucemias, e do sistema linfático, os linfomas. No fim dos anos 90, o cardiologista americano Piero Anversa, pesquisador da New York Medical College, ampliou o espectro de atuação da terapia. Ele demonstrou que células-tronco retiradas da medula óssea de ratos de laboratório eram capazes de regenerar o músculo cardíaco dos roedores. Na mesma época, o pesquisador James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison, conseguiu que células-tronco de embriões descartados por clínicas de fertilização assistida se reproduzissem em laboratório. Ele produziu uma linhagem inteira de células-tronco de embriões humanos. Combinadas, as descobertas de Anversa e Thomson abriram uma nova fronteira nos conhecimentos médicos.

Seria uma maravilha se as células-tronco da medula óssea e do cordão umbilical fossem tão versáteis quanto as embrionárias. Mas a capacidade de diferenciação delas é menor. A versatilidade de uma célula-tronco é medida pelo tempo em que ela consegue se manter indiferenciada durante o processo de reprodução em laboratório. Quanto mais ela se mantiver indiferenciada, maior é sua capacidade de se transformar numa célula específica que seja útil para um tratamento de saúde. "Sob condições ideais, uma linhagem de células-tronco embrionárias é quase 'imortal'. Pode se propagar centenas de vezes em laboratório", diz o médico Carlos Alberto Moreira-Filho, coordenador do Instituto de Pesquisa e Ensino, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. As células embrionárias podem ser multiplicadas in vitro mais de 300 vezes, sem perder suas características iniciais – ou seja, sem se especializar. Entre as células de cordão e as de medula, essa taxa de multiplicação chega a, no máximo, vinte vezes. Mas há uma vantagem das células de cordão umbilical sobre as de medula. "Um tratamento com as provenientes de cordão tem mais chance de sucesso, porque elas não sofreram agressões, tais como poluição, tabagismo e efeitos de drogas", diz a geneticista Lygia da Veiga Pereira, professora da Universidade de São Paulo.

Mas ainda há problemas na manipulação de células-tronco embrionárias. "Elas são tão potentes que até hoje não se conseguiu dominar totalmente um procedimento que permita controlar o ritmo com que elas proliferam", diz o pesquisador Antonio Carlos Campos de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em experiências com ratos, verificou-se que elas se multiplicam tanto e tão rapidamente que, sem controle externo, podem dar origem a um tumor maligno. Além disso, há a questão ética. Lançar mão delas significa matar embriões humanos. O papa João Paulo II definiu o uso de embriões de apenas uma semana como "um atentado ao respeito absoluto da vida". Em 2001, o presidente americano George W. Bush rendeu-se aos apelos dos fanáticos cristãos, que compõem sua base eleitoral, e suspendeu o financiamento com recursos públicos de novas experiências com células-tronco de embriões humanos. O veto mobilizou os setores mais arejados dos Estados Unidos. Artistas como Christopher Reeve, Michael J. Fox e Mary Tyler Moore foram ao Congresso protestar contra a decisão de Bush (veja o quadro). Os três são vítimas de doenças para as quais a medicina oferece pouco (ou nenhum) tratamento, e para as quais as células-tronco representam a maior esperança. Reeve está tetraplégico desde maio de 1995, quando sofreu um acidente durante uma prova de hipismo. Fox sofre de doença de Parkinson. Mary Tyler Moore tem diabetes. Apenas sete países autorizam as experiências com células-tronco de embriões humanos: Inglaterra, Austrália, Japão, Coréia do Sul, Cingapura, China e Israel.

No Brasil, por pressão dos evangélicos, há cerca de um mês, a Câmara dos Deputados vetou o artigo da Lei de Biossegurança que autorizava o uso de células embrionárias para fins terapêuticos. O veto foi duramente criticado por médicos, cientistas e pacientes. O texto definitivo ainda tem de ser aprovado pelo Senado. Pelos cálculos da organização não-governamental Movitae, que luta pela liberação do uso de células embrionárias para fins terapêuticos, há cerca de 30.000 embriões estocados nas clínicas brasileiras de fertilização. Pela lei, esses embriões não podem ser doados para pesquisas nem com a autorização do casal. "É um desperdício muito grande", diz Andréa Bezerra de Albuquerque, presidente da Movitae. "Depois de congelado, um embrião tem menos de 3% de chance de resultar em gravidez." O Brasil está jogando no lixo um tesouro científico.

No Brasil, há 25 pesquisas em fase de testes com seres humanos, conforme levantamento da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Vítimas de lesões medulares, insuficiência cardíaca, infarto, diabetes tipo 1, lúpus, esclerose múltipla e artrite reumatóide já foram tratadas com células-tronco. Em todos os casos, utilizaram-se células extraídas da medula óssea dos próprios pacientes. Há nove meses, foram iniciados estudos com células-tronco para a recuperação de lesões medulares, como paraplegia e tetraplegia. A maioria dos trinta pacientes que se submeteram à terapia recuperou um pouco da sensibilidade. O Brasil é pioneiro no uso de células-tronco para o tratamento do diabetes tipo 1, a versão mais devastadora da doença – a que faz com que seus doentes dependam de injeções diárias de insulina. Um transplante foi realizado em 12 de janeiro passado, sob o comando do médico Júlio Voltarelli, professor de imunologia clínica do campus Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Levando-se em conta os resultados dos estudos de Voltarelli no tratamento de outras doenças auto-imunes, a terapia tem tudo para funcionar também contra o diabetes tipo 1. Ele já aplicou, com sucesso, células-tronco em doze pacientes com esclerose múltipla e em dez doentes vítimas de lúpus.

A euforia, como se vê, não é sem razão e toma conta de todos os envolvidos – cientistas, médicos e pacientes. "São três forças poderosas em busca de uma oportunidade única na história da medicina", disse a VEJA o americano John Gearhart, pesquisador da Universidade Johns Hopkins e um dos precursores das pesquisas. A palavra-chave, por enquanto, continua a ser cautela. O cardiologista José Eduardo Krieger, diretor do Incor, tem uma boa analogia para ilustrar a situação da ciência diante da promessa oferecida pelas células-tronco. "O entusiasmo dos pesquisadores é semelhante à ansiedade de uma criança na frente de uma montanha de brinquedos embrulhados para presente. A vontade é abrir tudo de uma vez, mas é preciso paciência e desembrulhar caixa por caixa."


*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:34 PM





A explosão climática de Cosmotron
Cosmotron mostra o amadurecimento do Skank como banda e de Samuel Rosa enquanto compositor.
(Fabiano Calixto)

Depois do enorme sucesso comercial de seus discos anteriores, o quarteto mineiro Skank coloca na praça o excelente álbum Cosmotron (Epic, 2003). Trabalho repleto de referências aos Beatles, ao Clube da Esquina, ao piano de Arnaldo Baptista de Loki? (1974), aos climas psicodélicos dos anos 60 e a certo rock britânico feito em nossos dias, Cosmotron faz um rasgo enorme na discografia da banda, que agora troca o reggae balançado e o naipe de metais, por canções mais trabalhadas, com climas viajandões, boas letras, enfim, o grupo trocou o ritmo, que era a espinha dorsal de então, por melodias e harmonias bem elaboradas.

Desde o título, a palavra “cosmo” acoplada ao sufixo “-tron”, trazendo assim a idéia de constelário, presente nas palavras usadas nas letras (constelações, noite, estrelas, céu, lua, universos, sol), passando pela concepção gráfica, mais a pesquisa sonora, os experimentos de estúdio (com direito ao uso de instrumentos e equipamentos eletrônicos antigos – inclusive os velhos Rickenbacker, os amps Vox e pedais), composições mais complexas, tudo isso faz deste sétimo trabalho o melhor do Skank e um dos melhores de rock nacional em muitos e muitos anos.

Muito se fala nas citações aos Beatles e logo podemos notar isso na música de abertura, “Supernova” (Samuel Rosa/ Fausto Fawcett), onde, acredito, esteja a mais explícita alusão ao quarteto de Liverpool. No álbum Revolver, de 1966, a última canção, “Tomorrow never knows”, de Lennon & McCartney, é praticamente revivida aqui neste Cosmotron pelo quarteto mineiro. A semelhança é brutal. A canção do Skank talvez funcione como um lembrete, uma homenagem mesmo, e inclusive buscando explicitações da referência, como modos construtivos. “Tomorrow never knows” é uma explosão delirante e experimental de Lennon & McCartney, repleta de recursos de estúdio, entre elas loops, guitarras tocadas de trás pra frente, voz de Lennon passando por uma caixa Leslie de um Hammond etc. Esta parceria entre Rosa e Fawcett busca esses efeitos também, porém, são menos, digamos, criativos, pois a canção de Lennon & McCartney tem quase 40 anos e não tem precedentes. Isso tudo não quer dizer que “Supernova” não seja uma boa canção ou mesmo que seja um plágio, longe disso, é uma boa canção de abertura e uma revisitação à tradição com sensibilidade rejuvenescida.

A canção seguinte, “As noites” (Samuel Rosa/ Chico Amaral), introduzida por um piano e pela bonita voz de Rosa, logo vai se preenchendo com violão e bateria, formando um clima que muito lembra o Clube da Esquina de Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes. A bela letra de Amaral completa a canção (“E lá no céu os astros/ Num arranjo surpreendente/ Se buscavam como a gente/ Pelo menos tinha essa ilusão// São milhares de estrelas/ Singulares letras vivas no céu”).

Destilando ruídos, o disco vai explodindo com a balada “Pegadas na lua” (Samuel Rosa/ Humberto Effe), com sua bela melodia de violões carregando a bateria e desaguando em “Amores imperfeitos” (Samuel Rosa/ Chico Amaral), uma das melhores canções do disco.

Ao chegar à quarta canção, outro ponto luminoso: “Por um triz” (Samuel Rosa/ Rodrigo F. Leão). Totalmente cruzada por um teclado climático from the sixties (buscando mapas no BritPop), belas harmonias vocais, bateria truncada, esta canção é um rock de primeira, com refrão contagiante.

Creio que a grande composição deste novo trabalho do Skank é “Dois rios” (Samuel Rosa/ Lô Borges/ Nando Reis). Mergulhada até a medula pelo clima do Clube da Esquina, trabalhada em cima de piano, cordas e belas harmonias vocais, belíssima letra (Que os braços sentem/ E os olhos vêem/ Que os lábios sejam/ Dois rios inteiros/ Sem direção), crivada de requinte, com direito, inclusive, a um mellotron com sons de flauta de “Strawberry fields forever” (John Lennon/ Paul McCartney), “Dois rios” é um primor e, há muito, não se houve na música popular brasileira resultado tão admirável, tão cheio de beleza.

Um disco longo, com canções que, à exceção de duas, passam os quatro minutos, misturando múltiplos climas – a já citada obra-mestra “Dois rios”; a atmosfera dub de “Nômade” (Samuel Rosa/ Chico Amaral) que tem participação do DJ marroquino Paco Pigalle, que tocou com o grande Manu Chao e nesta canção cita palavras em árabe; o grande iê-iê-iê que é “Vou deixar” (Samuel Rosa/ Chico Amaral), rock que reverencia tanto a jovem guarda de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, quanto a bandas as inglesas como Supergrass, Pulp e Oasis; a balada “Resta um pouco mais” (Lelo Zanetti/ Chico Amaral), com uma letra muito bonita: “Navios colossais que nunca deixaram o cais/ Um pouco mais/ Naufrágio de estrelas no céu/ Uma razão cega para viver”; as guitarras distorcidas de “Os ofendidos” (Samuel Rosa/ Chico Amaral); ou o balanço de “É tarde” (Samuel Rosa/ Chico Amaral) –, mais a revisitação a outros motos compositivos (Beatles, BritPop, Arnaldo Baptista, Clube da Esquina, rock inglês atual), as citações várias contidas neste cosmusical mineiro-mundi-estelar: “Formato mínimo” (Samuel Rosa/ Rodrigo F. Leão), onde a letra atravessada por proparoxítonas no final de cada verso remete não apenas à “Construção”, obra-prima de Chico Buarque, como também à bem humorada “Drama de Angélica” (M. G. Barreto), imortalizada pela grande dupla caipira Alvarenga e Ranchinho, além das referências explícitas de “Águas de março” do maestro Tom Jobim e de “You don’t know me” de Caetano Veloso em “Sambatron” (Samuel Rosa/ Chico Amaral), todas esses pontos, e outros mais, formam o panorama deste álbum ímpar dentro da curtição de rock no Brasil.

Cosmotron mostra o amadurecimento do Skank como banda e de Samuel Rosa enquanto compositor, mostrando-se um dos mais instigantes e criativos dentre a geração que apareceu nos anos 90. Além disso, este álbum mostra que existe vida após o sucesso comercial, que é possível compor um disco com boas canções. Também mostra que o rock nacional ainda tem salvação. E, o mais importante de tudo: Cosmotron é, acima de tudo, um dos melhores e mais inspirados álbuns brasileiros destes últimos tempos.


*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:19 PM




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