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Deixa com o Beque !!

segunda-feira, abril 05, 2004



Plano B de Bom
(Diogo Mainardi - Revista Veja)

Eu tenho um Plano B para a economia. Os paloccianos afirmam que a mera existência de um Plano B pode prejudicar o Brasil. Bobagem. O que prejudica o Brasil é a falta de um bom Plano B. Em primeiro lugar, devemos diminuir a dívida pública vendendo tudo o que der para vender, dos imóveis às empresas estatais. Só a venda de Petrobras, Eletrobrás e Banco do Brasil pode abater cerca de 10% de nossa dívida interna. Eu sei que os brasileiros se orgulham de suas estatais. Cinqüenta anos de propaganda massacrante produziram esse resultado. O brasileiro é um tipo pitoresco: acha que todo político é safado, mas insiste em entregar suas maiores empresas a eles.

A Petrobras, por exemplo, é cara demais para nós. Veja o caso das plataformas petrolíferas P-51 e P-52. Durante a campanha eleitoral, Lula prometeu que elas seriam construídas no Brasil. Quando fez a promessa, no fim de 2002, cada plataforma estava orçada em cerca de 500 milhões de dólares. Quase um ano e meio depois, a P-52 foi encomendada a um estaleiro de Cingapura, por 775 milhões. E a P-51 ficou a cargo da subsidiária brasileira do mesmo estaleiro de Cingapura, por 800 milhões. A esse valor, porém, é necessário acrescentar os 150 milhões de isenções fiscais concedidos pelo Estado do Rio de Janeiro. E os 360.000 barris diários de petróleo que deixamos de produzir entre uma licitação e outra. O BNDES vai financiar a obra em 600 milhões de dólares. Apesar de todo esse dinheiro, serão criados menos de 5 000 empregos diretos no Brasil, metade dos quais na Nuclep, uma estatal que deu 35 milhões de prejuízo anual nos últimos dez anos e que já deveria estar fechada há muito tempo. Difícil calcular quanto a bravata nacionalista de Lula pode ter custado ao país. Alguém aí me ajude a fazer a soma, por favor.

Um bom Plano B para a economia também deve dobrar o superávit primário. O de Palocci foi insuficiente. Tivemos mais de 4% de déficit nominal no ano passado. Significa que faltou uma montanha de dinheiro para pagar os juros. O governo Lula nunca será capaz de zerar a conta. Por mais que ele aumente os impostos, o gasto público sempre irá crescer mais rápido. Em 2003, o Estado empregou 50 000 funcionários a mais. Só no Palácio do Planalto, o aumento de pessoal superou os 17%. O único a ser demitido foi Waldomiro Diniz, sem o qual o governo se embananou todo. Descobriu-se que era ele o verdadeiro manobrador por trás de José Dirceu, azeitando toda a barganha política no Congresso Nacional. O secretário executivo do Ministério do Planejamento, Elvio Gaspar, afirmou que o governo pretende contratar muito mais servidores até o fim do mandato. Elvio Gaspar foi secretário de Planejamento do Rio de Janeiro no governo Benedita da Silva, que deixou um rombo nas finanças do Estado e teve suas contas rejeitadas pela Justiça. Estamos, portanto, em boas mãos.

Cortar gastos é o melhor Plano B que existe. E é o melhor instrumento de moralidade política que o Brasil pode ter. Pena que ninguém tenha votado em mim na última campanha presidencial.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 3:09 PM


domingo, abril 04, 2004



Vamos a essa limonada
(João Ubaldo Ribeiro)

Reza a venerável sabedoria popular que, quando o destino nos traz um limão, devemos, em vez de reclamar, fazer uma doce limonada. Venho pensando nisso há tempos e creio que já estamos produzindo diversas limonadas, mas sem planejamento e coordenação adequados. É natural: certas coisas ficam tão patentemente à vista que não as notamos. Apegamo-nos, como está mais ou menos na moda dizer, a velhos paradigmas. Mas é necessário mudar, é preciso que removamos os véus antigos que nos toldam a vista, ou não chegaremos nem perto da prosperidade sempre almejada e perenemente adiada. Abandonemos pudores descabidos, que só fazem atrapalhar. O mundo de hoje, regido pelo mercado, impõe a revisão de valores anacrônicos, irrelevantes e aliados do atraso a que parecemos condenados.

São muito visíveis certos dados da famosa realidade nacional: a corrupção, a violência e a insegurança. Acreditam os que se apegam aos paradigmas superados que devemos eliminar essas características marcantes da nossa existência coletiva. Mas será que os que pensam de forma tão mesozóica não vêem que isso tem sido impossível, ao longo de toda a nossa História? Não estaria mais do que na hora de abandonar velhas convicções voluntaristas, infundadas e indemonstráveis? Essas convicções só contribuem para um distúrbio de personalidade: somos uma coisa e teimamos em querer ser outra, com todo o rosário de frustrações que isso acarreta.

Façamos uma tentativa, embora necessariamente esquemática, de observar como, por exemplo, a violência e a insegurança são hoje elementos indispensáveis à nossa já precária condição econômica, porque, como se vê nos jornais o tempo todo, exportamos muito, somos os reis dos negócios agrícolas, o FMI nos ama e o espetáculo do crescimento só está esperando os atores chegarem, mas a verdade é que cada vez se pode comprar menos e cada vez aumenta o desemprego. Enquanto isso, silenciosa e injustiçada, a nossa mais indomável vocação econômica, alicerçada na miraculosa criatividade com que a Providência dadivou os brasileiros, é que vem movimentando milhões ou bilhões de dólares, apesar das circunstâncias ingratamente adversas que arrosta. Basta pensar um pouco para ver como a bandidagem, no sentido mais lato do termo, é uma poderosa alavanca de desenvolvimento econômico. Às vezes fico olhando assim para o Brasil e me admiro como são cegos os que não percebem que lutar contra essa bandidagem é não somente inútil como pode prejudicar milhões de brasileiros, de empresários a operários, que hoje retiram dela seu sustento.

Faltam os cálculos, mas sobram exemplos. Quantos serão os brasileiros que exercem a função, oficial ou não, de seguranças? Centenas de milhares, milhões talvez. Para onde iria esse pessoal, se se pudesse viver sem ameaças? Já pensaram no gravíssimo problema social deflagrado pela desocupação dos homens e mulheres que trabalham diretamente na segurança de empresas, entidades, ruas e pessoas? Que fim levariam eles, engrossando a já insuportável massa de desempregados? Ou seja, não seria irresponsável o governante que, vamos dizer, investido de poderes miraculosos, apertasse um botão e acabasse de chofre com a necessidade de seguranças? Que calamidade não adviria, quantas famílias não seriam destruídas? Até a polícia sofreria, pois é sabido que muitos policiais complementam sua parca renda com o desempenho de funções particulares de segurança.

E a indústria e o comércio? Ninguém pensa na indústria e no comércio antibandidagem, mas eles são inestimavelmente importantes na nossa economia. Não tenho idéia de valores ou percentuais, mas há razões para crer que hoje um dos setores que mais crescem no parque industrial brasileiro é o especializado em blindagem de automóveis. Não é só numa São Paulo infestada dos nordestinos sanguissedentos que preocuparam o ex-ministro Graziano que a blindagem de carros fatura cada vez mais. É no Brasil, todo, inclusive no próprio Nordeste, que não exporta todos os seus bandidos para São Paulo, mas também para outros estados, além de conservar muitos em sua própria região.

E os circuitos internos de televisão? Quantos sistemas não são vendidos e instalados por dia? Já imaginaram o que significa isso para técnicos, projetistas, cientistas, instaladores e fabricantes de todo tipo de equipamento ligado ao ramo? No caso, isso não só representa empregos, mas também, com toda a certeza, avanço tecnológico, porque tenho certeza de que, hoje em dia, nossos circuitos internos já se enfileiram entre os mais avançados do mundo e devem estar sendo exportados para o Paraguai, o Haiti e um sem-número de outros fregueses necessitados. E os transportadores a frete, que agora, como se lê também nos jornais, são contratados para fazer o transporte ordeiro do que se furta de residências saqueadas? E as profissões, de grampeador de telefone a tomador de lugar em filas de velhos moribundos no INSS? E quantas famílias não são sustentadas pelo suor incompreendido de aviões e vapores do tráfico de drogas, jovens que do contrário estariam excluídos do mercado de trabalho, mesmo que inexplicavelmente informal?

Claro, apenas arranhei o assunto. É, digamos, uma provocação. Mas uma provocação de fito positivo, uma sacudida no pensamento inercial que vem tolhendo nossos líderes. Há sempre o lado bom das coisas, que teimamos em não ver, por afeição quase supersticiosa a padrões ultrapassados. Vamos abrir os olhos e lançar os preconceitos aos ventos. Não acho a noção de bandidagem participativa tão exótica assim, o Brasil é que não pode continuar a perder o bonde da História, amarrado a premissas errôneas.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:05 PM




MALDITA MULHER: DANI BLUE

Ontem tudo o que eu queria era tomar uma Skol estupidamente gelada, ouvir Afghan Whigs naquele momento em que o álcool começa a fazer efeito, e as luzes amarelas assimétricas saltam aos olhos, de maneira gritante, sentar num bar, puxar um papel, uma caneta, e escrever como eu já fui doente, como eu já estive à beira da morte nesse mundo ingrato, mas que agora eu ando bem, eu estou bem, só que muito solitário.

Eu não consigo parar de pensar em Jim Caviezel como Jesus em "A Paixão de Cristo". Não consigo, aquilo me tocou de uma maneira. Acredito em Jesus. Muito. E no livre arbítrio também, de pensar sobre ele o que eu bem quiser. Eu não acreditava em nada antes de 2004;

Solidão essa que, sempre foi a minha companheira. Beijamos de língua às vezes, nos encoxamos de pé, encostadas na porta de um bar, engolindo saliva, comendo cabelo, numa selvageria excitante.

Eu queria às vezes ter alguém para conversar sobre essas coisas que estão dentro da minha cabeça, dividir canções do Afghan Whigs, e do Twilight Singers, conversar sobre o período do pós-guerra, e como a Grande Depressão de 1929 causaram reviravoltas no mundo, não só no sentido econômico [que pouco me interessa aliás], mas também no sentido evolutivo, nas mudanças de comportamento, como as pessoas ficaram pobres, soltas no mundo, sem saber [e sem ter] para onde ir. Totalmente sem fé, sem esperança, sem nada, nada. Como os seres humanos ficaram como mendigos, cheios de feridas na boca, e axilas nauseabundas. Eles não tinham nada, e eu por uma tarde inteira [no caso ontem], desejei ter vivido aquele tempo, porque as dificuldades da minha vida parecem ridículas perto do que aquelas pessoas sofreram.

Eu fico pensando que seria muito bom poder entrar dentro dos pensamentos do Greg Dulli, pra ver o mundo com os olhos dele. Me disseram isso uma vez, eu achei tão bonito, tão bonito uma pessoa querer ver o mundo com os meus olhos, assim como eu gostaria de ver, por cinco minutos, uma noite de New Orleans com os olhos do Greg Dulli. Pelo que ele canta nas músicas, não deve ser muito diferente do que eu vejo, quando olho para as ruas de Curitiba. Só que ele tem genialidade. Eu não.

O Greg Dulli é brilhante. O cara estudou cinema, montou uma banda que nunca estourou para o mainstream, se tornou cult, teve doenças que apenas pessoas interessantes como ele têm, montou um bar, fez mais música, montou outro bar, fez mais música, deprimiu-se ainda mais, e ainda teve a coragem de cantar que "O amor é cego. O amor é bom".

E todas essas coisas fazem eu querer muito, pegar do mundo o que é meu de direito, e mudar, imediatamente a minha vida. Só espero que não tenha um bar no meu caminho, quando eu estiver fazendo isso.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:04 PM




Reversão
(Veríssimo)

Não se está dando a devida importância ao inédito furacão que atingiu a costa sul do país no fim de semana passado. Pode ter sido um sinal. Como é um fenômeno natural do Hemisfério Norte nunca visto por aqui, se não foi uma aberração, foi um anúncio. Algo pode ter mudado na inclinação do eixo da Terra ou no alinhamento magnético dos sei lá o quê, com o resultado de que começaram a acontecer coisas no Brasil que nunca tinham acontecido. Coisas estranhas e antinaturais como furacões do Caribe em Santa Catarina.

A mudança já teria se manifestado em estranhezas menores, que nós apenas não tínhamos notado. Foi preciso um cataclismo climático, ventos de 150 quilômetros por hora, para nos darmos conta da reversão. Ninguém me convence que o Zeca Pagodinho trocar a Brahma pela Nova Schin e depois voltar para a Brahma daquele jeito foi um procedimento normal, motivado apenas por dinheiro ou capricho. Forças muito mais poderosas do que o seu caráter, até agora inexplicadas, estariam em ação. E o PT no governo? Falam que o Lula mudou, que era um na campanha e é outro na Presidência, que o PT virou PSDB e corre atrás do FMI para pagar mais do que o FMI pede etc., e ninguém desconfia que a simples inconstância humana não pode ser a responsável por isto? Que explicar o comportamento do PT no governo pelo acaso ou a falta de convicção é o mesmo que acreditar que o furacão deu em Santa Catarina porque perdeu o caminho?

E o estranho silêncio do ACM? E o misterioso declínio do Guga? E você acredita, sinceramente, que alguém do tamanho da Daiane consegue pular daquela altura e ainda dar dezessete cambalhotas no ar só com a força das próprias pernas, sem ajuda de uma reconjunção magnética ou coisa parecida? E a conduta desconcertante da Luma de Oliveira? Saberemos se tudo é coincidência ou se houve mesmo um deslocamento do eixo terrestre e um realinhamento dos meridianos se começar a nevar em Belém do Pará. Você eu não sei mas eu não vou ficar para saber. Vou fugir deste hemisfério, pelo menos temporariamente, até que tudo se esclareça e o país volte à normalidade, ou à sua anormalidade costumeira, que aprendemos a amar. Estou saindo de férias. Volto em maio, se vocês ainda estiverem aqui.

*Publicado por Dhuvi-Luvio 2:03 PM





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